A Falta de Planejamento

As pessoas mais sensatas, e isso já foi dito aqui, têm consciência de que o planejamento no futebol atual é indispensável. A não ser que se tenha uma camisa com muita força – como é o caso de Flamengo, Fluminense e Vasco, que só agora estão se estruturando, e o Corinthians, que há pouco se reestruturou – o risco de se cair num limbo do futebol é grande. Temos campeões brasileiros caminhando entre as séries A e B há muito tempo, as vezes até a C. Bahia, Guarani e Coritiba são bons exemplos de que as glórias do passado não perdoam a falta de planejamento no futebol atual.

No entanto, a intenção deste post é falar do outro lado do jogo. O planejamento da carreira do jogador. Acabo de acessar a internet e vejo a seguinte notícia, no Globoesporte:

Inter confirma saída de Giuliano. FC Dnipro, da Ucrânia, é o destino

Isso me faz pensar 2 coisas, basicamente. Número 1: o Inter se confirma sendo um clube organizado, mesmo que de maneira extremamente conservadora (pois manter o jogador e investir em marketing com ele daria mais lucro, mas também é mais arriscado). Eles mantêm uma taxa de vendas de jogadores por ano para equilibrar as contas e ainda manter um time com alta folha salarial e com nomes de peso como Renan, D’Alessandro, Rafael Sóbis, Guinazu e Tinga. O Inter tem um histórico recente com vendas de garotos da base, e é quase uma política obrigatória dos dirigentes. Tivemos recentemente a venda de Luiz Adriano, na época com 19 anos, ao Shakthar Donetsk da Ucrânia; a venda de Alexandre Pato ao Milan; Walter ao Porto – por motivos disciplinares, na realidade – e Taison para o Metalist, da Ucrânia.

Observação número 2: quem gerencia a carreira de Luiz Adriano, Taison e Giuliano não pensa na glória de seus jogadores, apenas no dinheiro que eles recebem. 3 promessas com mercado alto em clubes brasileiros, lugares cativos em suas próprias equipes e uma boa visibilidade no exterior, acabaram indo para mercados pouco ortodoxos. Ainda mais com a iminente copa de 2014, o que está trazendo grande visibilidade ao Campeonato Brasileiro e fazendo com que grandes nomes voltem ao Brasil, vindo da Europa.

O caso de Giuliano me intrigou porque o garoto foi artilheiro do Inter na Libertadores, eleito o craque da competição e foi indicado a melhor jogador da América, junto com Neymar, nome perfeito para uma comparação.

Quem é um pouco mais aficionado por futebol sabe que Neymar não é um achado do ano passado. Já há uns 5 anos eu ouvia sobre o garoto da base do Santos que ia destruir no profissional, e que já ganha salário de gente grande há muito tempo. O que de fato aconteceu. Ele foi preparado pra isso, teve um apoio muito grande em termos de marketing, estrutura familiar, tranquilidade pra jogar futebol e, o mais importante, um talento fora do normal. Fez períodos de treinos no Real Madrid, recusou proposta do Chelsea e obrigou um sacrifício financeiro por parte do Santos para poder ficar e disputar a Libertadores. Sacrifício que certamente será compensado, com ou sem título, pois a visibilidade que Neymar e Ganso deram para o Santos em 2010 traz também muito dinheiro, principalmente oriundo do marketing, mas também de negócios diretos, como venda de camisa e bilheteria – o Santos tem jogado muito no Pacaembu ultimamente, visando maior arrecadação.

Qual a diferença entre Giuliano e Neymar? Além de jogarem em posições diferentes, é a ambição e a confiança. O clube tem sua culpa nisso, mas não está fugindo de sua política tradicional. Giuliano teve a glória vindo do banco de reservas, nunca teve lugar cativo no time, e agora sai do clube por uns trocos que poderiam se tornar muito mais, pra jogar em um centro sem nenhuma visibilidade, chorar e pedir pra ser emprestado daqui a 1 ou 2 anos. É claro que isso pode não acontecer, ele pode destruir no campeonato ucraniano e ir para um centro maior. Mas a gente sabe que o que geralmente acontece é a primeira opção.

O futebol brasileiro está evoluindo. Buscando alternativas pra trazer craques, pagar salários mais altos, tornar os clubes e os campeonatos mais organizados, alcançando um nível de excelência condizente com a paixão da maioria dos brasileiros pelo esporte. Mas ainda falta muito, e começar a olhar para a base e proteger nossas estrelas é uma grande maneira de se avançar. Afinal de contas alguém tem que formar o jogador e dar estrutura a ele, e vendendo pra um time mediano da Ucrânia não é um bom meio de se alcançar este objetivo.

Só para ilustrar o que quero dizer, podemos citar os 3 melhores do mundo escolhidos pela FIFA. Xavi, Iniesta e Messi saíram da base catalã, aliás um tema que merece um post especial num futuro próximo. Isso diz alguma coisa, não?

Por Luis Felipe Ferreira

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3 responses to “A Falta de Planejamento

  1. Pingback: Tweets that mention A Falta de Planejamento « Futebol e memória -- Topsy.com·

  2. Realmente acho que o Inter deveria capitalizar melhor o bom material humano que tem obtido nos últimos anos. É um modelo de gestão de clube, mas realmente parece subaproveitado. Vejamos como se sairá este ano. Pelo menos Leandro Damião teve o contrato renovado até 2016.

  3. Rapaz, eu ia lendo e pensando em coisas para falar no comentário. Ai eu seguia e encontrava no texto as coisas que eu tinha acabado de pensar. Muito bom, velho.
    Não sabia que o Giuliano e o Neymar haviam sido indicados a melhor jogador da América, por exemplo. Foi muito bom concluir com o trio da base do Barça.
    O Santos tem agora o grupo de investimentos Terceira Estrela, que inverte um pouco a lógica do mercado. É um grupo que tenta manter os jogadores no time – ao invés de vender. Muito legal…
    O que você disse sobre o Neymar, infelizmente não aconteceu com o Ganso. Ele chegou meio ‘tarde’ na base do Santos. Mas pelo menos foi valorizado, mas não antes de ter 25% do passe vendido por 178 mil reais. O que daria, mais de 1000% de valorização. O fato é que o antigo presidente cagou no pau MESMO.

    O Corinthians teve um puta mérito em relação a planejamento. Sem falar do CT novo, foi no Corinthians que esse esquema de trazer jogadores que se pagam com marketing teve mais visibilidade. O Ronaldo e o Roberto Carlos além de se pagarem tão sempre ajudando o time – mais o segundo que o primeiro ultimamente. Muito bom.
    Tomara que o futebol continue caminhando seguindo bons exemplos.

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