Gareth Bale, futebol olímpico e a crise de indentidade britânica

Há séculos, depois dos tempos de William Wallace e do Império Britâncio, fomos acostumados a conviver com o conceito de “união fragmentada” de Inglaterra, Escócia, Pais de Gales e Irlanda do Norte. Todos os países se uniram (na marra muitas vezes… pergunte ao IRA) sob a bandeira do United Kingdon. Para todos os efeitos, formam uma confederação com administração parlamentar sediada em Londres – mas possuem parlamentos regionais dotados de ampla autonomia – e sob a tutela da Rainha Elizabeth II, chefe de Estado. Mas pobre de quem tentar colocar todos no mesmo balaio. NUNCA diga que galeses, escoceses, ingleses e norte-irlandeses são a mesma coisa. Há grandes diferenças culturais e rixas envolvendo estas populações (talvez comparáveis às disputas entre católicos e protestantes que gera consequências inclusive no futebol, como a rivalidade entre Celtic e Rangers na Escócia).

A FIFA, ao longo da história, tem respeitado estas diferenças. Cada uma destas nações possui selecionados distintos para disputar competições de futebol desde sempre. O primeiro jogo entre seleções da história, inclusive, foi disputado entre Inglaterra e Escócia, em 30 de novembro de 1872 e o primeiro torneio internacional entre seleções era o Home Championship, uma espécie de “Copa do Reino Unido”, confrontando as 4 seleções. Entretanto, para o COI (Comitê Olímpico Internacional), nas competições regidas por ele todos os atletas das nações do UK devem representar a mesma bandeira, independente da suas vastas distinções. Isto tem sido contornado satisfatoriamente mesmo no futebol, com seu forte apelo emocional diante de suas populações. Entretanto, esta unidade está prestes a gerar um imbróglio para os dirigentes esportivos.

Sempre quem disputava as olimpíadas era o Reino Unido. Como as disputas olímpicas de futebol eram amadoras, não ouve qualquer problema administrativo que impedisse esta união. Seus jogadores inclusive conquistaram medalhas de ouro em 1900, 1908 e 1912. Entretanto, com a entrada de jogadores profissionais, não houve mais a formação de um selecionado do UK. As federações de futebol das 4 nações não formam uma equipe desde o pré-olímpico de 1971, com receio de que isto possa criam futuras discussões sob o status de que dispõe nas competições oficias da FIFA. Decidiram não arriscar, até porque hoje, as vagas são decididas no Campeonato Europeu sub-21, em que os países disputam separados. Um torneio FIFA decide a participação num torneio do COI e, sem acordo entre as partes, as equipes é que saem prejudicadas. Entretanto, ao melhor estilo britânico, na forma de um “pacto de cavalheiros”, as federações de futebol dos países decidiram pela formação – excepcionalmente – de uma seleção para as Olimpíadas em casa (com vaga assegurada pela disputa ser em Londres). Esta entretanto, sem um acordo das quatro e ainda temendo represálias da FIFA, ficou totalmente a cargo da federação inglesa, a FA, mais tradicional e capaz de montar uma equipe mais forte. Ou seja, será o English Team jogando por todo Reino Unido.

A polêmica criada em torno disso pela imprensa inglesa (notória criadora de polêmicas) e por alguns dirigentes, refere-se a um nome em especial: Gareth Bale.

O pomo da discórdia

O jovem jogador do Tottenham Hotspur, meia canhoto que gosta de jogar bem aperto para cair em diagonal em direção a área, com muita habilidade e velocidade. Nascido em Cardiff, Pais de Gales, já goza do status de estrela em ascensão na terra da Rainha. Com 21 anos e comparado ao também galês Ryan Giggs, o atleta tem chamado a atenção pelo futebol eficiente e bonito, atraindo a cobiça de equipes como a Internaziole de Milão (que sofreu 3 gols dele em casa no jogo pela fase de grupos da Champions League em que venceu os ingleses por 4 a 3) e Real Madrid (bom, mas quem o Real Madrid não diz que irá comprar né?).  Com tanto ibope, a mídia já caiu matando em cima dos responsáveis pelo futebol no país; afinal, como não convocar Gareth Bale para a seleção? Com amplo apoio da população, o caso pode ser comparado ao clamor por Neymar e Ganso na Copa ano passado, só que o caso britânico é mais complicado, já que não depende unicamente de uma escolha pessoal do treinador, mas sim de um impasse juridico-administrativo. Segundo declaração de Colin Moynihan, presidente do Comitê Olímpico Inglês:

Se os jogadores sentirem que estão sendo excluídos por qualquer outra razão além do mérito, então eles absolutamente têm de poder recorrer [judicialmente] da decisão“.

 

Neste ambiente, podemos ter mais um bom jogador na História sem a chance de brilhar em competições internacionais por sua seleção. Caso compartilhado pelo próprio Ryan Giggs, Dwight Yorke, jogador do Manchester  United  e de Trinidad e Tobago, e George Weah, jogador do Milan nascido na Libéria, até hoje o único africano eleito melhor jogador do Mundo pela FIFA, em 1995. Claro que em alguns destes casos só nos resta lamentar a fragilidade dos selecionados de seus países, incapazes de competir em alto nível, mas com Bale a situação poderia ser bem diferente. Mesmo não sendo geralmente o grande sonho de um futebolista, a oportunidade de conquistar uma medalha de ouro no seu pais (quer dizer, mais ou menos né… bah, vocês entenderam!!) não deve ser desprezada. O jogador admitiu que adoraria ter a chance de disputar o campeonato, mas sabe que “forças ocultas extra campo” é que vão decidir sobre este momento de sua carreira. Uma seleção forte esta sendo formada para a disputa, com bons jogadores como Theo Walcott, Jack Wilshere (ambos titulares do Arsenal), Andy Carroll (titular do Newcastle) e Daniel Sturridge, promessa do Chelsea. Seria uma grande oportunidade para o jogador e para a equipe, mas isto depende das 4 confederações e do comitê olímpico resolverem esta crise de identidade britânica.

 

Por YURI MOLEIRO

 

*Este post retirou delcarações do Blog de Leonardo Bertozzi: http://espn.estadao.com.br/olimpiada/post/170694_SONHO+OLIMPICO+PODE+LEVAR+ASTRO+DA+PREMIER+LEAGUE+AOS+TRIBUNAIS

 

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5 responses to “Gareth Bale, futebol olímpico e a crise de indentidade britânica

  1. De cara vou aproveitar a chance de cutucar o Real……é bem isso, eles querem comprar qualquer jogador que fique na moda. Se eles ouvissem a torcida do Flamengo gritando “Obina melhor que o Eto’o” eles viriam correndo.
    Mas, enfim. Acho que, no fim das contas, a Fifa vai dar um jeito de só poder ser convocado jogadores de seleções selecionadas por campeonatos FIFA. Não sei mesmo. Se abrir exceção pro Bale vira putaria.
    No fim nem faz diferença, o Brasil vai levar a medalha mesmo.

    • Bom, não sei… sobre questões do futebol olimpico a FIFA não decide nada. As decisões ficam a cargo do COI. Mas como as duas históricamente não se entedem lá muito bem, é bem possivel que o caso acabasse em chiadeira

  2. Pingback: Tweets that mention Gareth Bale, futebol olímpico e a crise de indentidade britânica « Futebol e memória -- Topsy.com·

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