O último zagueiro

Alguns o detestam. Alguns o amam. Alguns jogadores têm medo, alguns respeito e alguns não estão nem aí. Domingos, da Portuguesa, é o que os mais antigos chamam de Beque de Roça. Não tem habilidade pra dominar uma bola parada, mas não se pode negar que ele é um cachorrão defendendo seu território.

Já foi afastado por Luxemburgo por quebrar a perna de um companheiro em pleno treino do time. Já esteve envolvido em polêmicas, como com Diego Souza no Campeonato Brasileiro de 2009, e já deve ter sido expulso de uns vinte times. Mas quem não queria esta carinha de anjo tomando conta da defesa?

Apesar da minha pouca idade, tive o prazer de ver as grandes equipes da década de 1990 jogando. Vi santinhos como Ronaldão, Tonhão, Clebão, Djalminha, Edmundo, Danrlei, Fábio Costa, Gralac em campo. Com eles não tinha discussão. “A bola é minha, seu filho da puta! Quem manda aqui sou eu!”. E quem tem peito pra discutir?

Puxando um pouco da memória, me lembro de um memorável Palmeiras e Corinthians (daqueles). O Palmeiras de Ademir da Guia e Dudu, e o Corinthians de Rivelino, a patada atômica, só pra citar os mais ruinzinhos. Falta para o Corinthians. Rivelino vai prá batida. Dudu vai prá barreira. Dudu olha pro Rivelino, começam aquelas trocas de gentilezas, e fala pra ele: “duvido que você bate a bola aqui!!” batendo no próprio peito. Rivelino se posiciona, toma distância, e enfia um canudo criminoso bem no queixo de Dudu, que desaba no chão, entra maca, médicos, o fuzuê está armado. Por algum motivo, o juiz manda voltar a cobrança. Rivelino vai de novo prá bola. Dudu, de novo prá barreira. Dudu olha pro Rivelino de novo e, de novo, desafia “duvido que bate aqui de novo!!”.

Lembro também de um volantão do Palmeiras, o Edu. Tinha dois metros e quinze de pernas, mais escuro que a noite. Ele era o dono do meio de campo. Hoje em dia, pra bater pênalti, o jogador vai lá, ajeita a bola, dá chutinho na grama, beija a bola, toma distância, olha pro juiz, olha pra bola, olha prá câmera… Edu era mais simples. Pegava a bola e jogava na marca do pênalti. Do jeito que caía ficava. Tomava dois passos de distância e ficava olhando pro goleiro. Quando o juiz apitava, Edu corria igual um Mastodonte prá bola. Quando chutava, ia um tufo de grama pra um lado, um tufo de grama pra outro e o goleiro, mesmo que estivesse na bola, desviava, tamanha a pancada.

Domingos melhorou muito. Não é mais aquele assassino em campo, mas continua um predador, sanguinário e leal. Marca qualquer adversário com a mesma raça. Caneleiro. Como nos velhos tempos. Como nos bons tempos. Como tem que ser todo zagueiro.

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3 responses to “O último zagueiro

  1. Curto o bequezão clássico. O Domingos, como vc falo no post, já quebrou a perna do Rafael, atual goleiro do Santos. É cada uma! hahahahahaha
    Mas eu queria ele no meu time…
    Já penso? Vitória apertada, o time precisando do resultado…o técnico chama o Domingos e fala “Vai la, meninão, garante essa pra gente. 5 minutos sem perder a amizade!”

    • exatamente como o Mancini fez naquela classica vitoria sobre o ultimo time bom do palmeiras

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