E a Copa da Ásia? (parte 2/3)

Disputada no Qatar este ano, a Copa da Ásia foi o grande evento futebolístico de 2011 até então. O torneio ocorre de quatro em quatro anos e tivemos sua 15ª edição. Contou com 16 equipes definidas por eliminatórias. Foi relegado a um plano secundário de importância para a mídia nacional, mas é um evento privilegiado para discutir vários aspectos interessantes para os apaixonados por futebol. Debato o tema aqui em 3 partes:

GERENCIAMENTO: Parte 2

A cada competição de nações no continente asiático, notamos as melhoras no futebol de algumas equipes. Outras, mesmo com vastíssimos investimento, deixam muito a desejar. Além de estarem ligados a fatores históricos determinantes na região, como estabilidade politico-econômica (o que dificulta, por exemplo, que o Afeganistão tenha um time que preste) há também o choque dos modelos empregados pro clubes e federações nacionais para fomentar o esporte na região.

Para países onde seus cidadãos não nascem com a bola no pé (como Brasil e Argentina, onde encontram uma cultura futebolística altamente desenvolvida que refina seus múltiplos talentos), os caminhos possíveis para um aprimoramento na prática do esporte costumam distinguir-se em;

– enviar seus jogadores massivamente – facilitando este tipo de transação, permitindo o livre transito de agentes FIFA, olheiros, inclusive oferecendo diversos benefícios para que lancem os olhos em seus garotos  – para o exterior. Este modelo é empregado pela Austrália por exemplo – principalmente com transferência para Inglaterra – e a décadas visto em muitos países da América Latina e quase todos os da África, o que gera um “colonialismo futebolístico”. Costuma gerar bons selecionados, mas ainda carece de força local.

– focar-se na criação de um campeonato nacional mais competitivo, que estimule o crescimento das equipes locais com a presença de profissionais de países-referência (jogadores/treinadores/comissão técnica). Modelo que nos últimos anos tem sido empregado por países do mundo árabe  ainda sem resultados expressivos, mas que trouxe grande desenvolvimento anteriormente para Japão, Rússia e Ucrânia na década passada. Necessita de um forte investimento (petrodólares do governante local, patrocinadores audaciosos, lavagem de dinheiro, essas coisas caóticas…).

 

O presidente do Al-Ahli, príncipe Hamdan bin Mohammed bin Rashid Al Maktoum. Compram loucamente e mandam em tudo com mão-de-ferro. Gerenciamento predatório!!

A melhor investida parece ser a dos países que adotaram um “modelo híbrido” entre estes possíveis caminhos. Deve haver uma mistura entre a exposição do material humano – que quando tem um bom desempenho em equipes da América ou da Europa revela a seus consumidores um novo mercado, abrindo portas para outros de seus profissionais que queiram trabalhar nas principais ligas do Mundo – e o fortalecimento da cultura interna voltada para o esporte, que tem como principais trabalhos a criação de uma liga nacional organizada e coesa, tornando o produto mais atraente para os jovens, ganhando espaço na mídia e estimulando o surgimento de torcedores, sempre acompanhados do subsequente aumento de contratos de patrocínio. Os melhores exemplos disso estão no Japão e na Coréia do Sul, duas das maiores economias do continente e com as ligas mais ricas e organizadas; a J-League e a K-League.

Ao contrário do mundo árabe onde rolam rios de dinheiro para trazerem nomes de peso no futebol (muitas vezes sem um pingo de vontade e ligados mesmo em fazer uma grana fácil), o foco destas ligas tem sido – além do óbvio fortíssimo viés comercial respaldado pela FIFA – a intensa troca de experiências e aprimoramento técnico, tático e gerencial do esporte por seus profissionais. Nos anos 90, ondas de jogadores argentinos, colombianos, mas principalmente brasileiros (pé-de-obra barato e de qualidade) foram contratados por equipes destes países, com grande sucesso. Demonstravam sua técnica e habilidade, contagiaram o grupo com sua postura mais leve no trato com a atividade, serviam de ídolos para as gerações posteriores. Treinadores, fisiologistas e preparadores físicos formaram boa parte das comissões técnicas de várias equipes, onde introduziram diversas modificações nos treinamentos, na postura de jogo, na preparação física. Mais do que o “showbizz” que é desejado pelos sheiks (que mandam e desmandam, entras nos vestiários e diz quem entra e quem sai) são campeonatos que apesar de novos, nasceram com o objetivo propiciar condições de desenvolvimento para o futebol local focando uma extensa aprendizagem baseada no intercâmbio de experiências. A J-league surgiu em 1992, da reformulação de uma liga já existente desde 1965. A K-league surgiu em 1983 e ambas fizeram maravilhas pelo futebol dos países. Como o futebol sempre foi ligado a empresas nestes países, patrocínios e investimentos eram abundantes (menos em tempos de crise é claro, se bem o futebol passou a ser uma outra maneira de gerar renda também).

Estádios modernos e sempre lotados, equipes bem-estruturadas, campeonatos cada vez mais lucrativos e com um calendário atraente. Acho que em alguma coisa é nossa vez de aprender...

Jogadores como Washington, Magno Alves, Bismark, Leonardo, Marco Tulio (zagueiro nipo-brasileiro naturalizado e campeão da Copa da Ásia com a seleção japonesa) são referência no país. Zico (que jogou no Kashima Antlers de 91 a 94) é praticamente um Deus na terra do sol nascente. Fez sucesso como treinador também, chegando inclusive a dirigir a seleção japonesa. outros que fizeram um bom trabalho lá foram Toninho Cerezo e Oswaldo de Oliveira (tricampeão japonês e que ainda esta por lá, também no Kashima Antlers).

Após cerca de duas décadas de aplicação de novas políticas esportivas, as duas sedes da Copa do Mundo de 2002 (escolhidas também pela grande capacidade de organização, além é claro, dos interesses da FIFA de conquistar espaço no oriente) gozam dos frutos dos investimentos anteriores. Hoje não só recebem e absorvem experiência, como também divulgam e ensinam como lidar com um esporte global e altamente competitivo. A formação de jogadores através das Ligas Universitárias – altamente disputadas, ricas  e que pervertem a nossa cultura de categorias de base – é um exemplo disto. Se o empenho de seus dirigentes e jogadores em busca de reconhecidos internacional tem dado resultados tão rápidos, acredito que ainda possam melhorar bastante. E tudo este êxito passa por condições adequadas para o desenvolvimento desta aptidões, coisa que muitas equipes do mundo, inclusive times brasileiros, deveriam valorizar.

Na próxima e ultima parte de série, vamos falar do que realmente importa para muitos: money!

Por Yuri Ribeiro Moleiro

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One response to “E a Copa da Ásia? (parte 2/3)

  1. No caso dos países tipo Brasil e Argentina, como você mesmou falou, eu acho que o melhor mesmo é tentar se aproximar o máximo possível do modelo ingles – onde quase ninguém sai do país. Tem que haver um glamour e um orgulho de disputar o campeonato local. Com bons salários, bons centros de treinamento, boa mídia, boa visibilidade, bons estádios, boas ações de marketing e transmissão. Isso é o que faz o jogador querer ficar, como conseguir eu não sei.

    E países que não tem tradição, como os casos que você mesmo falou, é muito bom importar esse know-how de países como o nosso. Tipo com o Zico, com o Levir Culpi, Paulo Autuori, e outros por ai.

    O duro é que mesmo assim muitas equipes decepcionam, mas ai é tipo ensinar índio a dançar balé.

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