E a Copa da Ásia? (Parte 3/3)

Disputada no Qatar este ano, a Copa da Ásia foi o grande evento futebolístico de 2011 até então. O torneio ocorre de quatro em quatro anos e tivemos sua 15ª edição. Contou com 16 equipes definidas por eliminatórias. Foi relegado a um plano secundário de importância para a mídia nacional, mas é um evento privilegiado para discutir vários aspectos interessantes para os apaixonados por futebol. Debato o tema aqui em 3 partes:

ECONOMIA: Parte 3

Um torneio de proporções continentais como este sempre atrai atenção. Movimenta países, torcidas, patrocinadores, prestadoras de serviço. A FIFA tem sido extremamente bem sucedida em tornar o futebol um esporte bastante rentável, principalmente após a primeira gestão de João Havelange (se isso é bom ou não, e se os meios usados em suas negociações são adequados, eu ainda não sei), mas encontra na Ásia um dos seus grandes desafios.

O Mundo Árabe vive este processo intensamente na última década. Seus petrodólares tem sido usados para financiar o futebol dentro e fora do continente. Se ainda não conquistou o seu espaço desportivamente, a península arábica é hoje um dos centros nervosos de toda a capitalização de recursos a que o futebol pode auferir. Com campeonatos riquíssimos (mesmo que de qualidade duvidosa e que não favorecem muito a difusão do esporte nos seus países, já que o “show” lá é extremamente elitizado), os sheiks tem se especializado em utilizar o esporte como meio de promoverem seus redutos – caso da realização do Torneio Interclubes da FIFA em Dubai, nos Emirados Árabes, por exemplo – e valorizarem suas empresas com grandiosos patrocínios – melhor exemplo disso é o da Emirates, empresa aérea que patrocina o Arsenal da Inglaterra e dá nome para seu estádio – chegando ao ponto inclusive de associarem seu capital a administração de equipes inteiras, “comprando” o clubes (ou ao menos a maior parte de suas ações caso tenha capital aberto) como o Manchester City.

O Sheikh Mansour bin Zayed Al Nahyan (terceiro da esquerda para a direita)

Os citizens, como são chamados, tem servido de projeto pessoal para o sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan desde setembro de 2008, com contratações suntuosas e valores exorbitantes. Hoje se responsabiliza a “gastança” desenfreada possibilitada em parte pela entrada do capital de magnatas asiáticos como um dos responsáveis pelo desequilíbrio nas contas de muitas equipes européias. Nem sempre a entrada de capital salva uma administração deficiente…

Se o problema no Mundo árabe não é dinheiro, a questão esportiva fica por baixo. O que não impede os negócios certamente, mas poderia fazê-los ainda melhor. Os árabes são apaixonados por futebol, desde o norte da África até a Ásia Central, entretanto, lá o esporte nunca teve o cuidado que merece.

Mas lá pelo menos, essa falta de cuidado (que a FIFA deveria olhar e combater, e não apenas ficar enchendo o bolso… afinal ela serve para cuidar do esporte no Mundo ou trazer lucro? Fica a dica que a resposta é bem fácil…) não gera uma supressão nos investimentos. Este problema está presente em outros locais, essas sim verdadeiras frentes de batalha para Joseph Blatter, por seu grande potencial pouco explorado: China e Índia.

Mercado inexplorado... aposto que ninguém ai vai no estádio no domingo...

Dois países extremamente populosos, com economias crescendo vertiginosamente e com um mercado interno que clama por consumo. Seriam as meninas dos olhos de qualquer investidor certo? Não no caso da FIFA. Por exemplo, apesar do interesse e admiração dos chineses – que prestigiam o esporte muito mais que os indianos – as cifras em relação ao futebol no país ainda são muito limitadas: não há um campeonato nacional realmente prestigiado (existe a CSL [Chinese Super League… com o nome em inglês mesmo] fundada em 2004 e que engatinha num processo de maior profissionalização do esporte no país) e ainda não há um forte suporte de patrocínios para o desenvolvimento local do futebol. O ideal para a FIFA seria fomentar este tipo de investimento através da Federação Chinesa de futebol – já que a FIFA não gerencia assuntos locais – para levar a um processo semelhante a Japão e Coréia do Sul. Se conseguirem abrir caminho para o esporte no país (sem a preocupação unicamente predatória como demonstra fazer a arábia) pode de beneficiar de grandes resultados no futuro. Com Copas como a dos Estados Unidos em 1994, Coréia-Japão em 2002, a escolha de Rússia (influente na região) e do Qatar para sediarem as em 2018 e 2022, a entidade máxima do futebol mundial tem demonstrado esta crescente preocupação. Entretanto, apesar do sucesso de reforçar mercados como o obtido no Leste Europeu com os investimentos da UEFA, a FIFA ainda parece mais preocupa em lidar com as cifras que saem do que com o esporte que se estabelece nos países.

Para que o futebol conquiste realmente conquiste o continente, os torneios entre nações são importantes, mas ainda é mais necessária a valorização local da modalidade. Mesmo com crescente projeção internacional, ainda engatinha ao tentar vender seu produto. Prova disto é o fato de que mesmo tendo um pouco mais de espaço na Europa nesta edição, a Copa da Ásia ainda perdeu em audiência para a Copa das Nações Africanas de 2010, sediada na Angola. Impulsionada pelo grande número de imigrantes, principalmente na França, os números das transmissões para TV e internet do torneio africano superaram e muito os do seu correlato asiático. Não há interesse de fora e o interesse interno, quando existe, não é devidamente explorado. Na prática, o esporte ainda precisa se estabelecer internamente para que no futuro possa brilhar aos olhos de quem esta fora.

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