Como surge um São Paulino?

Futebol na minha vida sempre teve um lugar.

Adorava jogar quando moleque. Acordava meu pai as sete da manhã para trocarmos uns passes na quadra do clube, mas não tinha saco para assistir uma partida (quase duas horas de jogo… não acaba nunca… quando começa o Jaspion?). O primeiro jogo que assisti inteiro foi Guarani e não sei quem… acho que era o Botafogo… não me pergunte em que ano! Lembro que tive a atenção presa mais pela narração (do fantástico Januário de Oliveira, o cara do “tá lá um corpo estendido no chão…”, e do “Crueeeeeel, muito cruel…”; obrigado por me fazer olhar para uma partida!) do que pela partida em si. Com o tempo fui pegando gosto pela coisa, observando, vendo o meu pai xingar o lateral, xingar o zagueiro, xingar o juíz…

Até ai, sempre que me perguntavam pra que time eu torcia, virava a cara, fazia bico, pensava… e nada. Até o fatídico dia 12 de dezembro de 1993, quando meus pais e amigos da família foram para um churrasco. Correndo, pulando, brincando com as outras crianças… os pais conversando ou tocando alguma musica, era um fim de semana como outro qualquer até repararmos – nós, os pequenos – num detalhe; ninguém nos mandava ir dormir. Nossos pais pareciam acessos, ansiosos, ligados em algo que ignoravamos mas que devia ser muito interessante. O sono batia mas resolvi ficar alerta para saber o que eles tanto esperavam. Uma visita? Um presente? A comida e a cerveja haviam acabado mas eles continuavam agitados.

Eis que dada a hora, todos se dirigem para a sala, amontoando-se uns sobre os outros, pois não havia sofá pra todo mundo. Reunem-se de frente para a TV. Nervosismo a flor da pele, olhos arregalados.. para… para… ver um jogo de futebol? Mas que raios faz um jogo de futebol na madrugada? Não era sacramentado no domingo a tarde, antes das video-cassetadas? Já me bastavam as madrugadas das corridas de automóvel que minha mãe tanto gostava (e que também passeia a admirar). Peço contas ao meu pai, indignado – afinal, estava com sono e de mal humor – e ele me explica do que se trata; Final do Intercontinental, disputada em Tóquio, no Japão (por isso o horário esdrúxulo) entre SÃO PAULO e MILAN.

As tuas glória…

Não havia questionamento a se fazer. Meu pai é santista (da cidade mesmo) mas nunca perdia uma partida televisionada. Acompanhava até no radinho, que ficava ligado mesmo no horário da janta se tivesse bola rolando. Como já estava acordado mesmo, subi no braço do sofá e vi o jogo. Começou com alegria para a casa, em vinte minutos Palinha fazia 1 a 0. 1 a 0!!! Para o time do Brasil!! Não era comentário geral na sala antes do jogo que a nossa seleção é forte mais os clubes europeus são melhores que os nossos? Taí a prova… engulam essa! SÃO PAULO 1 x 0 MILAN.

Meu pai mesmo santista apoiava o tricolor, mas muitos no recinto trociam para os rossoneros. Que disparate!! Onde já se viu? A equipe daqui jogando, se esforçando, tentando mostrar que era capaz de brilham entre os melhores do Mundo e aqueles seca-pimenteira falando mal, torcendo contra… aquilo não estava certo. Zombavam do São Paulo e falavam que logo iria tomar a virada… menosprezo e fanfarronice eu não tolero! Me junto ao coro com meu pai: PRA CIMA DELES TRICOLOR!!

Gosto de ver os brasileiros sendo agressivos, não se intimidando. Todos diziam que o Milan era melhor, mas é dai? Futebol se decide dentro das quatro linhaa e até eu com meus 6 anos sabia disso!

Veio o balde de agua fria com o começo do segundo tempo… gol de Massaro para os italianos num chutão dado pro alto. Que bobeira da zaga hein?  Já pode imaginar a festa que os adversários naquela salinha no interior de São Paulo fizeram né?! Vontade de estrangular um por um dos que ficavam pulando que nem loucos na nossa frente e xingando geral (até que as mães interferiram, afinal tinha criança na sala…). Neste passo já estava também nervoso, ansioso e tenso… queria ver o São Paulo vencer. Queria ver  os italianos engolirem o desdém que, na transmissão, o narrador vivia reiterando. Acho que nunca tinha ficado tão pilhado na minha curta vida, nem esperando o Papai Noel (mesmo sem ter chaminé em casa, o que sempre me colocava em paradoxo…).

Será que aquilo era torcer?

O relógio anda, o tempo fica curto. Milan ataca, São Paulo responde. Equilíbrio é a marca e tudo fica realmente emocionante. Acho que agora sei porque é quase um ritual religioso sentar em frente a tela para ver o futebol…

SÃO PAULO 2 x 1 MILAN!!! Um cara de bigodinho fez o gol!! Quem a pai? Cerezo? Aaaah sim. Vou me lembrar!

Por que estou tão feliz com isso?

Milan empata… carcamanos malditos! Papin faz um gol… o que essa zaga estava pensando porra! (momento repreensão da mãe falando que se eu disser palavrão outra vez me manda pra cama…)

Agora é reta final, finalzinho do jogo… quem fizer agora deve ser o campeão… se ninguém fizer… penaltis? Ai jesuis, penaltis não o.O

O tricolor bota o time pra frente! Fica mostrando um velhinho de agasalho gritando com todo mundo… acho que é o tal do Telê… tá mais nervoso que eu!

Bola pro ataque, agora vai… agora vai… aaaah, muito forte, atacante teve que dividir com o goleiro. É uma pen… mas o que? Espirrou a bola? Ta indo pra rede? ENTRA DESGRAÇADA (nova repreensão por palavrões)… mas dane-se!!! É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!! Muller!! Sei lá como,  mas é o gol! Olha o replay: de calcanhar? UAHHUAUHAUHAUHAUHA!!! Só alegria!!!

Agora é só segurar!! Prende bola no ataque, falta no meio-campo, bico pra frente do Ronaldão!!!

Acaba o jogo… São Paulo é Bicampeão Mundial!!!!

Gritaria! Começa a tiração de sarro… meu pai me segura pelos ombros e me chacoalha pra ver se eu volto a piscar… estava extasiado!

Festa… gritos… fogos…

… e nascia mais um São Paulino!! Com muito, muito orgulho!!

 

POR YURI

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One response to “Como surge um São Paulino?

  1. É isso aí, amigo. Ainda bem que sempre times que não são os da imprensa (que quer explorar torcidas maiores para vender mais) se impõem. Por isso compuz um samba-rock que faz apologia a times de todo o Brasil que representam os menos laureados pela imprensa.
    Assista o clip no Youtube. A música fala também do seu São Paulo, na frase “Não sou Corínthians e me sinto muito bem, pois o Santos e o São Paulo muitas glórias têm também”:

    Saudações botafoguenses.
    servo Marcos

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