A história dos pequenos da cidade grande…

No futebol não existe o “clube médio”; ou é grande, ou é pequeno. Exagero? Talvez, mas  quando se fala de um pequeno, não estamos necessariamente depreciando sua história. Muitos critérios podem ser empregados para essa qualificação como o patrimônio do clube, número de torcedores, títulos conquistados… há ditos grandes que se apequenam com o tempo (como ocorreu com o Penãrol do Uruguai por exemplo) e pequenos que tem dias de grandeza (como o São Caetano que na década passada era uma dor de cabeça constante, disputando os maiores títulos possíveis para clubes brasileiros). Podemos ter clubes grandes com times pequenos, e clubes pequenos com grandes times. Mas o pequeno que eu uso aqui é mais carinhoso do que depreciativo.

Na capital paulista por exemplo, temos duas equipes que assumem esse papel (a Lusa esta num limbo entre o trio de ferro e estes dois… nem vou entrar no mérito da questão…) com muito charme e simpatia. São equipes de agremiações de bairros que cresceram, conquistaram seu espaço no cenário futebolístico nacional e no passado já rivalizaram com os grandes sempre que uma oportunidade pintava. Por serem menores, a torcida fica mais próxima do cotidiano do clube, dos jogadores e dos dirigentes, o que trás para as arquibancadas aquela sensação de pertencimento, de cumplicidade, de família mesmo.

Os dois clube são:

CLUB ATLÉTICO JUVENTUS

O clube da Mooca surgiu em 1924 e, pasmem, foi fundado por membros da colônia italiana! Antes apenas como time de futebol – e depois tornando-se um importante clube recreativo da cidade – marcou presença importante no esporte logo nos seus primeiros anos. Com equipes que por muito tempo foram formadas majoritariamente por imigrantes ou filhos de imigrantes, o Juventus conquistou seu primeiro titulo em 1929 ao vencer o equivalente na época à segunda divisão do Campeonato Paulista. Desde então nas décadas de 30, 40 e 50, foi frequentador assíduo da elite do futebol do estado e incomodava os 4 grandes junto com equipes como Portuguesa e Ponte Preta.

Ganhou fama no estado e a simpatia de muitos por ter uma torcida que mesmo praticamente confinada ao próprio bairro, era apaixonada, vibrante, e apoiava (como apoia até hoje) o time durante o jogo todo. Nos jogos, o Estádio Conde Rodolfo Crespi (famosa instalação da Rua Javari, nº 117, que leva o nome do dono da fábrica onde os fundadores trabalhavam e que ofereceu a eles o terreno onde hoje é o estádio) vira uma “Mini La Bombonera” com tanta pressão dos donos da casa. Foi notabilizada em todo o Brasil pelas rasteiras que dava nos grandes clubes do estado quando eles menos esperavam, ganhando em 1930 o apelido de Moleque Travesso ao aprontar para cima do Corinthians no Parque São Jorge logo em sua estreia na elite paulista. O culpado pela alcunha foi o jornalista esportivo Thomas Mazzoni, que disse na data de 14/09/1930:

“este feito foi tal como a travessura de um moleque, que ousou vencer um gigante em seus próprios domí­nios”.

De lá pra cá, vez ou outra o Juventus apronta, e fez a fama e a mística da camisa grená. Teve sua maior conquista futebolística em 1983, ao vencer a Taça de Prata, equivalente na época à segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Digo futebolística porque a sua maior conquista realmente foi o carinho que todos os paulistanos nutrem pela agremiação. Está hoje disputando a Série A3 do Campeonato Paulista… sorte dos grandes que não tem que se preocupar em levar uma estilingada no meio da testa enquanto caminham saltitantes em busca de um título…

E os caras lotam mesmo o.O

NACIONAL ATLÉTICO CLUBE

A equipe da Água Branca tem oficialmente 92 anos, mas sua história vem de bem antes disso; e é vital na história do futebol brasileiro. O time passou a ter este nome em 1947, tornando-se o NAC (Nacional Atlético Clube), mas antes disso, chamava-se SPR  AC (São Paulo Railway Atletic Club). Quem gosta de um pouco de história reconhece logo a o nome da companhia britânica que administrava a estrada de ferro de mesmo nome, idealizada pelo Barão de Mauá para ligar o planalto paulista ao Porto de Santos, indo da cidade litorânea até Jundiaí, principalmente para escoar a gigantesca produção de café do interior do Estado. Mas para o futebol, a importância encontra-se no fato de que foram os funcionários desta empresa, juntamente com os da Cia. de Gaz, também britânica, que disputaram a primeira partida de futebol (na época football) em solo tupiniquim. A SPR foi a vencedora, 2 a 0. Não a toa contava com Charles Miller (aquele mesmo!) em seu quadro de funcionários!! O clube faz parte importante, portanto, da história do futebol mundial; pois não só disputou o primeiro jogo em nosso pais, como realizou o primeiro jogo na nação que viria a ser a maior campeã mundial no esporte. É uma história de respeito!

Time do SPR

Já como Nacional, a equipe profissional não teve vastos êxitos. Vinha sempre subindo e descendo pelas divisões inferiores do futebol paulista. Conquistou duas vezes a A3 e só. Entretanto, hoje mantêm um forte tradição no futebol de base, sempre formando jogadores (muitos fornecidos a times maiores da cidade) e campeã da Copa São Paulo de Futebol Jr. 1972 e 1988.

Manda seus jogos na Avenida Marquês de São Vicente, no Estádio Nicolau Alayon (um dos únicos do Brasil a homenagear um estrangeiro; Alayon era uruguaio e ex-diregente do clube).

Os dois clubes citados não tem e mesma história vencedora dos outros da capital Paulista, mas certamente fazem parte da construção da identidade de uma cidade que, em quase todos os bairros, mesmo sem os espaços adequados, guarda uma equipe amadora que seja, de entusiastas sempre dispostos a bater um bolinha.

Tem lugar garantido sempre que formos falar sobre o futebol paulista.

 

POR YURI MOLEIRO

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