Esse tal futebol moderno

Quem tem idade pra ter acompanhado o futebol da década de 1990 sempre fala com saudade daquele tempo. Assim como quem tem idade pra ter visto o futebol da década de 1970 deve ter muito mais saudade. Pros mais novos é difícil entender esse “futebol moderno”. Como era antes? Como é agora? O que melhorou? O que piorou? Eu vivi pra ver o futebol de 1990. E, como talvez a maioria da minha geração, tem uma saudade enorme daquele tempo.

As principais mudanças, a meu ver:

Lei Pelé: o início de tudo. Antes, o jogador era preso ao clube. O clube era detentor de seus direitos. O jogador assinava um contrato diretamente com o clube, exatamente como é feito quando você, trabalhador, assina contrato com uma empresa. Você é funcionário da empresa. Tem um contrato a cumprir. A empresa tem direitos sobre você, existe uma conduta que você deve seguir, boas práticas, maneiras, avaliação do seu rendimento, tudo isso. Era assim também. Com a Lei Pelé, o jogador deixou de ter vínculo direto com o clube: agora ele tinha Passe. Ele passou a ser um prestador de serviços ao clube. Mais de uma pessoa pode ter uma porcentagem do seu passe (mais ou menos como se uma empresa colocasse seus papéis na bolsa e acionistas comprassem suas ações): empresários, grupos de empresários, jogador, familiares, clube… Você, leitor, pode ter um jogador pra você. Aliás, você pode ter o passe de um jogador.

Empresários: os donos do jogador. Como agora quem mandava no jogador estava distribuído pelo país (ou fora dele, a ser visto mais adiante), o jogador passou a ter pouca ou nenhuma relação com o clube. A voz de tudo é o empresário do jogador: ele que conversa com clube, com outros interessados, com interessados em comprar o passe… E, como o leitor já deve ter percebido ou deduzido, o que interessa para o empresário é uma coisa só: $.

Ninguém é de ninguém: jogador joga se quiser (ou se o empresário mandar). Não tendo mais vínculo com o clube (apenas um papelzinho assinado com os direitos e alguns deveres do jogador para com este), o jogador não via mais necessidade de se esforçar tanto. Bastava uma temporada boa, ou alguns jogos, no caso de alguns jogadores (Alexandre Pato, por exemplo, que jogou só 22 jogos pelo Internacional antes de se transferir para a Europa) e o empresário arrumava infinitas propostas boas (leia-se: europeias) para o jogador. Neste caso, dois caminhos seriam possíveis: o jogador fica no clube ou sai dele. O empresário pressiona o clube para pagar mais: tendo uma proposta de fora, e o jogador sendo realmente bom para o clube, o clube se via encurralado: ofereceria uma grana para o jogador ou o liberaria? Oferecendo uma grana, tendo contrato de vários anos e dinheiro garantido por direito, o jogador poderia até sumir do mapa que ainda receberia seu salariozinho; liberando-o cedo, o clube perderia a chance de fazer dinheiro caso ele se valorizasse em mais 1 ou 2 anos. O clube acabou por virar um refém dos jogadores. Virou uma barriga de aluguel, ou até melhor, uma vitrine. Isso acabou permitindo que grupos de empresários, empresas e estrangeiros tivessem negócios no Brasil.

Investidores: os cafetões. Sabe quando uma prostituta tem um cafetão para agencia-la? O cafetão fala: “não aceite cheque”, “não vá com esse cara”, “não faça isso”, “faça ponto ali”, “cobre tanto”. Os empresários e os jogadores são a mesma coisa. Eles é que mandam no jogador. Por exemplo: hoje, se o técnico muda o estilo de jogo de um jogador, e o jogador reclama para seu empresário, tem a resposta “não faça isso, jogue do seu jeito, se não te quiserem, te levo pra outro time”. Assim como as prostitutas, parte de seu pagamento vai para o cafetão. Com os jogadores, que talvez nenhum tenha 100% de seus direitos federativos (um nome bonitinho pro Passe), quando uma venda é concretizada, ele fica com muito pouco dessa grana. Sendo os jogadores agora empresas, outras empresas podem assessora-los, compra-los, vende-los, negocia-los… E, como sabem, no Brasil, vale tudo (até dançar homem com homem e mulher com mulher). Empresários estrangeiros viram um bom negócio aqui (lembra que Raulzito falava “o negócio é alugar o Brasil”? Pois é, veja o que acontece:) com os times empobrecidos (já que os jogadores não rendiam mais dinheiro) e sem jogadores de qualidade para lotar estádios e ganhar títulos (o que dá dinheiro para os clubes), se chegasse alguém oferecendo jogadores “craques” em troco de visibilidade e uma graninha que sobrar, os clubes aceitariam. Foi o que aconteceu no caso Kia Joorabichian e a MSI no Corinthians: um magnata petroleiro trouxe craques de todas as espécies para o clube, ganhou um título [contestável], vendeu todos seus jogadores por uma grana preta e sumiu. Outro caso é a Traffic no Palmeiras: investindo em jovens talentos, a ideia era comprar esses jogadores (já que o clube não tinha dinheiro), coloca-los pra jogar e, quando amadurecessem colher os frutos (aka vende-los). Novamente, a única coisa que importa para os empresários é $. Depois de desmantelar os clubes, sabe quem foram os prejudicados? Os jogadores.

Craques: espécie em extinção. Pense rápido: sem demagogia, cite 10 craques que jogam no Brasil hoje. Você tem 10 segundos. Não conseguiu encontra-los? E se eu disser que 1 minuto é tempo insuficiente para listar craques que jogavam no Brasil na década de 1990? Eu posso provar. Antes de continuar, leia este post do Yuri. Como o que mais importa é a grana, você acha que o empresário quer esperar 10 anos para o jogador dar lucro? Não! Ele quer logo, ele quer já! Jogadores jovens, craques, habilidosos, imaturos. Esse é o perfil. Eles não se importam se o jogador ainda não tem cabeça, se ainda é uma criança, se ele precisa evoluir futebolisticamente. O pensamento agora é outro: é melhor vendê-lo enquanto está em alta, vai que ele não é tudo o que promete? Com isso, jogadores de 18, 17, 16 e até 12 anos já foram vendidos a preços astronômicos para a Europa. Alguns, tamanha é a falta de vínculo (ou seria desrespeito?) com o clube, que brigam na justiça para serem liberados ainda nas categorias de base, nem chegam a subir ao time profissional. Até alguns anos atrás, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha eram os grandes focos do futebol internacional. Agora, os empresários não querem nem saber para onde eles estão indo: querem vende-los. Hoje jogadores vão para Turquia, Grécia, Ucrânia, Rússia, Uzbequistão, Chechênia… Novamente: não importa o jogador, importa a grana que ele vai fazer.

Com tudo isso, acabamos perdendo talentos, promessas e alegrias. Ou você não reparou ainda que essa briga envolvendo Clube dos 13, CBF, FPF, Globo, Record e RedeTV! é só pra quem vai ganhar mais dinheiro? Você não reparou que ninguém liga para o que o jogador quer? Para o que o clube quer? Você não reparou que não se vêem mais jogadores brilhantes, craques, jogadores habilidosos? Você não reparou na falta de laterais, camisas 10, centroavantes? Você não reparou que qualquer um que faça 10 gols por ano já é chamado de craque? Já tem o nome gritado? A torcida ficou órfã, o brasileiro ficou órfão do futebol. O que se vê hoje não é futebol: são jogadores programados desde pequenos. São jogadores produzidos. Todos eles são fortes, são resistentes. Todos eles se jogam no chão toda hora, querem falta. Não brigam pela bola, não buscam o gol. Não tentam nada novo. O zagueiro é programado pra marcar o atacante burro, que é programado pra só chutar, não importa pra onde, não importa quando. O meio campo virou um poço de volantes. Laterais só correm. Qual a beleza desse futebol? Esse tal futebol moderno nos fez perder jogadores como estes:

Kerlon

Kerlon foquinha

O foquinha

Quem não se lembra dele? Surgiu nas categorias de base do Cruzeiro. Ganhou esse apelido por causa de seu drible: levantava a bola e a equilibrava na cabeça e partia pra cima dos adversários. Promessa. Sabe o que ele virou? Também não sei. Chegou a ir para as seleções de base. Passou por Chievo, Inter de Milão, PSV… Hoje está emprestado ao Paraná.

 

 

Lulinha

Lulinha

Amigo do Dentinho

Surgiu junto com o Dentinho no Corinthians. Perto dele, Dentinho era ninguém. Grande promessa e esperança da nação corinthiana. Com 20 anos, foi para Portugal (Estoril e Olhanense) e agora os únicos interessados são Bahia e Avaí.

 

 

 

Celsinho

Celsinho

Ronaldinho "cover"

Meia habilidoso da portuguesa, seu cabelo longo lhe rendeu comparações com Ronaldinho Gaúcho (!). Com 16 anos foi transferido para o Lokomotiv Moskou depois de passagens pelas seleções de base. Jogou em portugal, engordou horrores, voltou para a Portuguesa em 2010 e, criticado, foi embora. Hoje tem 22 anos, contrato com o Sporting e só.

 

 

Ramon

Ramon

Kia gostava dele

Quando surgiu no Atlético-MG, era uma das grandes promessas do futebol brasileiro. Também passou pelas seleções de base. Quando começou a ser observado pelos europeus, Kia o comprou. Mal começou a carreira e já estava parando: passou por Corinthians, CSKA, Krylia Sovetov, Flamengo e Bahia, onde está hoje. Ele tem 22 anos.

 

 

Fábio Pinto

Fábio Pinto

Deixou Ronaldinho Gaúcho no banco

O responsável por deixar Ronaldinho Gaúcho no banco na seleção de base, antes dos 18 anos estava disputando o campeonato espanhol. Surgiu no Internacional e passou por Real Oviedo, retornou ao Inter, depois Galatasaray, Grêmio, São Caetano, Coritiba, Cruzeiro, Cabofriense, Guarani e agora sumiu no Pakhtakor Tashkent do Uzbequistão. Pressão e depressão frearam a ascensão do jovem.

 

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2 responses to “Esse tal futebol moderno

  1. Arce,

    boa tarde.
    li seu blog hoje, estou produzindo uma matéria sobre o futebol moderno, ou melhor, sobre o movimento “não ao futebol moderno”, achei seu texto muito bom e se possível, quero ver se consigo uma palavrinha sua sobre o assunto.
    se puder me ajudar mande um email para igor_rcarvalho@yahoo.com.br.

    abraço!

  2. Pingback: Esse tal futebol moderno | FUTEBOL E MEMÓRIA | ZiiPe·

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