Nos tempos do Palestra…

Vale a pena começar citando:

“Santos, 17 de janeiro de 1882. O navio “Colombo” acaba de chegar da Europa lotado de passageiros mas ainda mais de esperanças. Entre todos aqueles que desembarcaram e pela primeira vez pisaram o solo nacional estava Caetano Tozzi, o primeiro dentre os italianos a se registrar nos serviços brasileiros de imigração. Assim como as centenas de milhares de seus patrícios, Caetano trazia uma enorme vontade de trabalhar.”

Sede social em 1915

Em 1914, talvez dos filhos destes pioneiros,  ele nascia; batizado de Societá Palestra Itália por voz do italianos, aqueles de verdade, vindos de navios para estas terras plenas de oportunidades e cheias de mosquitos, nascia um clube de futebol. Infelizmente, durou até morrer (morrer eu disse? Ledo engano… mas depois voltamos a isto… continuando…) em 1942 por voz do Sr. Getúlio que negava sua antiga admiração aos oriundos da península Itálica em nome da aliança Latino-americana que, entre outras coisas,  extinguiria o Reich da face da Terra.

Foto do passaporte de imigrantes italianos... vinham de mala e cuia...

Os italianos eram um grupo especialmente unido. A saudade da terra longínqua deixada para trás era um dos motivos que mantinha a comunidade agregada, mas também os laços de sangue (famílias inteiras vinham juntas ao Brasil) e sociais (muitos da mesma região, mesmo vilarejo, falando com o mesmo sotaque). Foram lavradores, comerciantes, operários e empresários. Rapidamente conquistaram um lugar central na vida da São Paulo em formação, participando ativamente de seu crescimento. Influenciaram economico e culturalmente esta cidade. Muitos saíram do campo e sitiaram bairros inteiros como Brás, Mooca, Bexiga e boa parte do centro e da Bela Vista. Haviam até jornais só para os migrantes. O principal deles era o “Fanfulla”, onde Vicenzo Ragognetti, um dos fundadores clube e sócio do periódico, veio a publicar:

“Todos os quais desejarem participar da criação de um clube italiano de calcio (futebol) devem comparecer às 20h00 no número 2 da Rua Marechal Deodoro para a reunião de fundação do Palestra Itália”.

Nome decidido já de antemão. Cores também: as da bandeira da pátria-mãe. Tudo assim, remetendo à velha Bota.

Anúncio das atividades, duas reuniões e em 26 de Agosto, 46 pessoas fundavam um clube de futebol dos – e para os – italianos! Poucos times tem o privilégio de já surgir com tão grande torcida!

Mas tiveram que trilhar o caminho das pedras como todo grande… logo de saída, ao nascer, o clube quase teve que fechar as portas!! Coisa que acontece, é difícil iniciar e fazer vingar uma agremiação, seja de quem quer que seja… os pioneiros tinham muita união e grande senso de comunidade, mas era uma época complexa para todos: a Primeira Guerra Mundial era especialmente dispendiosa para os imigrantes europeus. Muitos enviavam dinheiro para casa – familiares e amigos que sentiam os efeitos do conflito diretamente – e alguns até chegaram, por ideologia ou patriotismo, a voltar a pátria  para combater no front. Assim, logo que abriu, o Palestra teve que apertar o cinto e segurar as calças para se manter de pé. O jeito encontrado: oras, não somos um clube para o calcio? Então é hora de entrar em campo!! Luigi Cervo, um dos fundadores, bradou alto das reuniões da direção: “Uma partida de futebol! Temos que organizar uma partida de futebol! Assim mostraremos que estamos vivos e que seremos grandes!”. Falou com paixão, como bom italiano… e convenceu!

os 4 grandes idealizadores, da esquerda para a direita: Luigi Cervo, Vicenzo Ragognetti, Ezequiel Simone e Luigi Emanuele Marzo.

Em 24 de janeiro de 1915, o primeiro jogo: contra o Savóia, clube da italianada de Sorocaba que ostentava o nome da família real, símbolo da unificação nacional. O Palestra entrou entrou de azul – segundo uniforme – para também homenagear a família real, que possuía esta como cor símbolo; o azzurro (a Squadra Azzurra, seleção italiana de futebol, até hoje tem o azul como cor oficial). O jogo foi beneficente e a renda, revertida à Cruz Vermelha Italiana (lembrando que a Guerra ainda estava rolando). Saldo final: 200 contos de réis para a caridade (uma pequena fortuna), vitória por 2 a 0 – gols de Bianco e Alegretti – e a chance de mostrar à comunidade que sim, eles tinham um time de futebol!!!

Mas e o dinheiro? não era para o clube? eles não estavam quase fechando por falta de verbas? Verdade… tudo verdade… mas algumas coisas trazem mais recurso do que a renda de um jogo; a vitória deu ao time visibilidade, projeção e um sopro de entusiasmo que fez novamente a colônia, mesmo na adversidade, se unir e abraçar a causa do seu time de futebol. Começou a contar com a simpatia de comerciantes, empresários e outros notáveis possíveis investidores. Espalhou-se pela cidade. tornou-se um clube de massa. Virou motivo de de piadas dos adversário que desdenhavam o “time dos carcamanos” e de cantigas dos torcedores, mais apaixonados do que a maioria.

Primeira equipe palestrina a disputar o Paulista em 1916: Em pé, da esquerda para a direita: Gobato, Valle II, Vescovini, Bernardini e Severino. Agachados: De Biase, Bianco e Fabbi. Sentados: Fabrini, Grimaldi e Ricco.

Nos anos seguintes, a equipe ganhou força, apoio e cristalizou seu identidade junto a comunidade e fora dela. Ganhou mais visibilidade quando passou a disputar o Campeonato Paulista – ainda amador – contra equipes como Mackenzie, Paulistano, Santos, Corinthians (onde a rivalidade logo se desenvolveu, pois eram dois clubes com grande apelo popular) e conquistou seu primeiro título em 1920, numa final contra o Paulistano, um símbolo da “elite social” da cidade,  que buscava o pentacampeonato.

Foi um jogo dos mais disputados que a metrópole já vira!! O Palestra era pura garra e dedicação em campo, defendendo e atacando em massa, coeso, unidos. O Paulistano era um time mais veloz e habilidoso e contava com um gênio da bola: Arthur Friedenreich, “el Tigre”, caminhando para tornar-se uma lenda viva. No Estádio da Floresta – palco neutro, com capacidade para 15 mil torcedores, dos quais apenas 2 mil ficavam sentados – as duas equipes disputaram um jogo dos mais agitados: primeiro tempo muito disputado, um pouco violento, terminando em zero a zero. No segundo, logo aos cinco minutos Martinelli solta uma bomba a média distância e marca o primeiro. Os palestrinos provam a alegria e logo depois a tristeza, ao sofrer um gol de Mário, numa desatenção da zaga. O jogo fica aberto e mais corrido. Vantagem para o Paulistano que encontra campo aberto. O Palestra prefere o jogo de contato, era um time de maior força, melhor preparo físico. Chances perdidas dos dois lados. Pior para o Paulistano que encontrou o goleiro Primo num dia daqueles; não passava nada, ora por habilidade, ora por uma sorte daquelas! Diz a lenda que anos após o jogo era comum ver torcedores pedindo para tocar o guarda-redes na esperança de que ele trouxesse boa fortuna. Aos 32 minutos, numa jogada individual de Forte, a italianada explode em alegria novamente: 2 a 1!! Nos minutos final, o time se fecha na defesa e luta como pode. Resiste. Feroz. Vence!!!

Time campeão paulista de 1920: Forte, Federici, Serafini, Ministro, Oscar, Heitor, Martinelli, Primo, Severino, Bianco e Picagli (crédito: livro Palmeiras, o Alviverde Imponente)

Acabado o jogo; Palestra Itália campeão Paulista de 1920! Primeiro título de um clube que quase não passou de seu primeiro ano. Título do esforço, da união e de uma comunidade que era abraçada por toda a cidade. De uma comunidade que mais do que nunca fazia parte desta cidade!

 

Cheque da Cia. Matarazzo; primeira parcela da compra do Stadium Palestra Italia: 250 contos de réis (250 milhões de réis)

Anos depois, já tendo firmado-se como um grande, após mais títulos, mais glórias, um estádio (comprado em 1920 com o apoio da Cia. Matarazzo e ampliado nos anos seguintes) lá se foi o pobre do Palestra viram Palmeiras em homenagem já extinto A. A. das Palmeiras, um dos muitos clubes que minguaram durante sua jornada no mundo da bola, homenageado pelos palestrinos por ter sido um dos seus maiores colaboradores em 1916, quando os novatos pleiteavam uma vaga no Campeonato Paulista pela 1ª vez, apoio que não seria esquecido, e foi retribuído com a perpetuação do seu nome após sua extinção (também foi para aproveitar o “P’ já existente nos uniformes, confeccionados em algodão lavado, o que seria um grande desperdício se tivessem que trocar todos… mas isso é só um detalhe). Curioso pensar também que, da carcaça do homenageado, surgiria o embrião de um dos maiores rivais do alviverde; o São Paulo Futebol Clube.

Enfim, depois de ser impedido de ostentar a alcunha itálica, o vermelho foi extirpado de suas cores, símbolos e bandeiras, como quem tem seu sangue drenado para nunca mais senti-lo. Entretanto, já haviam construções muito sólidas no coração desta torcida para que um decreto presidencial pudesse atingi-las; uma alma senhores… uma alma pulsante, quente e viva. Nascida, crescida e devota, não só no seio da comunidade italiana mas por toda a paulicéia, que já aprendia a torcer pelos seus heróis, mesmo que fossem heróis com sotaque napolitano, vêneto, calabrês… Palestra Itália e Juventus eram seus principais bastiões, e deixaram grandes marcas na história do futebol brasileiro, principalmente o alviverde, que de Palestra Itália a Palmeiras – independente do nome – nunca perdeu sua alma, sua identidade, sua paixão.

Torcida que canta e vibra...

Que isto não se perca nunca e o que o Palmeiras sempre seja, no fundo, Societá Palestra Itália. Que morreu mas não morreu, que se foi sem ter ido, que mora nos corações alviverdes e renasce a cada grito de gol, a cada vitória, a cada título.

 

POR YURI MOLEIRO

 

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5 responses to “Nos tempos do Palestra…

  1. A rivalidade não me impede de enxergar a grandeza da história do Palmeiras e de seus fundadores e torcedores.
    Parabéns Yuri, e que o respeito e admiração que eu tenho por bons textos, permaneçam explicitos nesse comentário. Belo blog.
    Boa sorte!!
    Guina
    http://WWW.GUINASP10.BLOGSPOT.COM

  2. Cara, arrepiei lendo!
    Eu virei palmeirense antes de descobrir que era italiano. Imagina minha alegria quando descobri!
    Excelente, conta muito da história que eu mesmo não conhecia.
    Se quiser fazer a parte 2, tenho umas dicas já hehehe
    A primeira é uma espécie de boato que rola, mas até com um fundo e um consenso de verdade: quando as agremiações italianas ficaram proibidas no Brasil, o Palestra mudou o nome para SEP: Sociedade Esportiva Palmeiras. Porém, há quem diga que SEP seja Seremos Eternamente Palestra.
    Ma che?

    • heheheh sim sim

      foquei mais no Palestra antes do primeiro titulo… a história é muito vasta e queria estabelecer um foco inicial…

      os posts de história são dificeis e trabalhosos, mas são também alguns dos mais recompensadores… ideia de expandir o numero de post na parte de memória o/

      POR YURI MOLEIRO

  3. Linda história, parabéns pelo texto Yuri!
    Avanti Palestra, scoppia che la vittoria è nostra!

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