Geração Winning Eleven (parte 1)

Republicado com permissão do Forza Palestra.


Futebol moderno: eis aí a expressão abominável para o verdadeiro torcedor. Este blog já abordou muitas das consequências maléficas desta praga dos nossos dias, mas não tinha encontrado ainda o momento adequado para tratar de um aspecto que, embora secundário, é bastante relevante para os ideais desta página: refiro-me à Geração Winning Eleven.

Pois é, você que me lê certamente conhece alguém (irmão, primo, amigo… ou você mesmo, vai saber) que sabe de 1 a 11 (ou de 22 a 99, de acordo com os tempos modernos) a escalação dos principais times europeus. Até de aberrações como o Chelsea, a definição perfeita desses tempos de futebol moderno (notem a quantidade de camisas do Chelsea pelas ruas de SP…).

Não vá pensar você que essa gente conhece a escalação do Liverpool, do Milan, do Barcelona ou do Real Madrid por ter o hábito de acompanhar os campeonatos europeus com afinco ou mesmo de estudar a história dos clubes e do futebol europeu. Nada disso! A relação desses jovens (alguns nem tão jovens assim) é com o videogame e eventualmente com qualquer tipo de material que se preste ao serviço de propagação desses clubes como empresas globais, mais preocupados que estão em vender camisas e bugigangas na China, nos Estados Unidos, no Japão. Ou no Brasil…

É a Geração Winning Eleven. São jovens que desconhecem a história do futebol e que simplesmente se deixam levar pelo que é apregoado por marqueteiros, quer sejam eles daqui ou de fora.

Problema deles, dirão alguns. Bom, provavelmente é mesmo, e eu deveria mais é querer distância de pessoas que vão contra a identidade do futebol. Acontece que surgiu, nesses últimos dias, o momento em que o embate se fez necessário. Tudo começa com uma discussão travada via Twitter entre o grande palestrino Felipe Giocondo e alguns sujeitos que se dizem integrantes da Arsenal Brasil, “a primeira torcida organizada do Arsenal na América Latina”.

Nego fez site, blog, Twitter e tal, e aí foi dar as caras em um programa da ESPN Brasil, proclamando, vejam os senhores, um certo amor pelo Arsenal, clube londrino que não tem qualquer relação com o Brasil ou com o nosso futebol (como nenhum outro clube do exterior, cabe dizer). Isso posto, alguns dos senhores podem estar se questionando: o que tem de mal nisso?

Bom, acontece que não há menor condição moral de alguém torcer por um time que não é do seu país. É evidente que o cara que resolve fazer isso deve ter lá o seu direito constitucional, mas o que se discute aqui é o desrespeito à cultura do futebol. Mais do que um simples jogo e acima de quaisquer interesses financeiros, o futebol é uma manifestação cultural completa, e deve ser compreendido como tal. Mas sim, esta é apenas a minha opinião.

Daí que o amigo Felipe Giocondo foi lá dialogar com os sujeitos que formam essa suposta torcida organizada de sofá. Comecemos pelo fato de ser ofensivo falar em “torcida organizada” quando tudo o que os negos sabem fazer é ver o jogo do time (?) pela TV, a bunda escorada no sofá, a mais de um continente de distância. Ok, adiante.

Fosse só isso, e eu sinceramente teria ficado na minha, porque, afinal, há muitas outras preocupações quando se trata de futebol. Se tivessem os alienados de sofá apenas retrucado a argumentação do Giocondo, e eu igualmente teria ficado na minha. No entanto, e aqui reside o problema, acabei me deparando com a alienação dos comentários pseudo-britânicos, e aí não deu pra segurar.

Vamos começar por este aqui:



“Quantos títulos o seu time tem?”
“O seu time/sua torcida teve repostagens
(não seriam reportagens?) exclusivas na Globo ou ESPN?”
“Sorry if we are the best!”?

Vou me abster. Seguimos com outro bom exemplo:

Está feita a comparação: “times de futebol são como bandas de música”. E eu poderia aqui tecer comentários infindáveis sobre a inadequação da proposição e mesmo sobre as implicações do que está sendo dito, mas acredito que meus leitores são inteligentes o bastante para entenderem o que está por trás do raciocínio.

Tem mais:

Ora, ora, ora. O sujeito apelou para o discurso vazio dos títulos. Parece até um leonor falando, não? Interessante notar que o time para o qual o cara supostamente torce é um dos poucos ditos grandes da Europa sem título da UCL. Mas o ponto aqui não diz respeito à questão dos títulos, mas sim à maneira como ele argumenta. “Sucesso”? “Paixão”? Só pode ser brincadeira.

Mais um pra finalizar:

Eis então que lá de Fortaleza, cidade que em muito se assemelha ao norte de Londres, o sujeito vem ostentar o seu orgulho de torcedor de sofá. Bonito, muito bonito…

Em todos os casos acima expostos, não é à toa a opção por um time que disputa a Premier League, torneio que há muito perdeu a sua essência, hoje com times formados quase que integralmente por estrangeiros. Quem banca isso? Magnatas do petróleo, empresários americanos, mafiosos russos, o escambau. Alma? Bom, isso ficou nos tempos de Nick Hornby, nos tempos de Highbury…

Por favor, torcedores organizados de sofá, não vão me dizer que não sabem quem é Nick Hornby. Por favor, não façam isso!

Em Soccernomics, O livro, há um capítulo (“Are soccer fans polygamists?”) todo dedicado a estudar o posicionamento dos clubes europeus como empresas globais, dispostas a fazer (???) torcedores (??????) em todos os cantos do mundo. Torcedores? Bom, a palavra mais adequada é “consumidores”, uma vez que o objetivo dos grandes europeus quando se trata de América Latina ou Ásia é um só: vender. O discurso da tal diretora de torcidas organizadas (???) do clube londrino reflete bem essa visão expansionista: “Queremos que o Arsenal seja um clube mundial”.

Portanto, um brasileiro que se diz torcedor do Arsenal é na verdade um consumidor da Geração Winning Eleven. Torcedor, nunca é demais dizer, é aquele que vai ao estádio!

Por favor, deixem o futebol em paz! Só isso!

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23 responses to “Geração Winning Eleven (parte 1)

  1. Concordo em gênero, número e grau. Existe esse oba-oba em relação aos clubes europeus, o que considero uma alienação. É a chamada geração do vídeo-game, como foi supracitado. Entendi perfeitamente, quando se trata do mesmo país, repita-se, país, não vejo problema algum torcer por outro clube que não o de sua terra natal, e não considero válida a analogia em relação a clubes de outros países. Outra cultura, outro povo …, e se gosta tanto de lá, então compre uma passagem e mude-se para lá. O futebol brasileiro é “al concur”. Acho uma grande bobagem essa geração com camisas de clubes europeus, os quais se jogassem torneios regionais em nosso país não teriam a menor chance. Sou brasileira, graças a Deus. Viva o nosso futebol.

  2. Beleza, mas os caras tem esse direito,mas querer comparar,times estrangeiros com brasileiros dois tipos de futebol diferente cara,os melhores do mundo estão lá(maioria,porque tambem tem bons no brasil)são duas realidades de futebol.
    Não há comparação

  3. Cara posso até entender seu ultranacionalismo, regionalismo ou o que seja. Como você mesmo citou vivemos hoje numa coisa global, econômia global como é dito, então qual o problema de haver esse pensamento? Sou palmerense e tenho uma enorme simpatia por times do interior torço pro Santo André pois passei boa parte da minha adolescência indo assistir ao jogos. Você poderia dizer: “Poxa não respeita o seu time da sua cidade” (é este seu pensamento concluo.). Veja bem sou Palmerense por escolha, posso dizer até por paixão mas tenho o Ramalhão por grande simpatia e por ter ótimas lembranças da minha infância e adolescência.

    Mas dizer tudo isso, tudo isso é de uma vã falta de observação, pois quem tem meios procura seus fins e os times europeus entrocaram outra forma de ganhar o seu de forma coisa que os times brasileiros sustentados por empresas e por outros meios não fazem e vivem quebrados e não dão lucro (acho, e digo para os torcedores), não dão prazer por vezes (hoje não tenho mais prazer ao ir ao estádio) a assistir a jogos, pois até o que é vendido na tv já não faz graça então o que sobre o diferencial, torça para o Arsenal, Liverpool ou Milan ou Barcelona seja inglês ou Italiano. Tenho até muito mais vontade de assistir a um jogo da Liga do que uma do Campeonato Brasileiro, ou até o regional. Posso se agora contraditório mas esse meu pensamento é atual. Hoje o que se vendo de futebol é violência, aqui e lá eles vende de outra maneira mesmo sabendo que pode ser até igual o mais violento como cá, só que ele o vendem bem compra quem o quer.

  4. Mas times são como bandas de música. O Palmeiras, por exemplo, é o Aerosmith: só faz sucesso com uma parceria.

    O Remo é o Calypso: orgulho do Pará. E só do Pará.

  5. Sou paraibano,mas vascaíno de coração,eu assisto os jogos na torcida organizada do vasco agora :D
    Mas tipo você não deveria se importar pra com essas pessoas que se dizem torcedoras cara,e aliás a pessoa nao necessariamente tem q torcer para um time do seu país.
    Abraços.

  6. “Bom, acontece que não há menor condição moral de alguém torcer por um time que não é do seu país. ”

    Parei de ler aqui.

    O mesmo raciocínio usado para dizer que quem nasce no Norte, Nordeste ou Centro-Oeste não pode torcer para os times do Sul ou Sudeste.

    Você paga as minhas contas?

    Não? Então deixe eu torcer para quem eu bem entender e seja feliz :)

  7. Não acho o texto fraco, achei bem escrito e bem argumentado, fora que eu concordo com o ponto principal, isto é, hoje em dia muitos torcedores preferem vibrar con a vitória de times estrangeiros do que com times do seu próprio país. Porém, sinceramente, não vejo problema nisso; lamento, mas mas cada um tem o direito de torcer para quem quer. Da mesma forma que pessoas do interior do país possuem 2 times (geralmente, um time local e um outro de expressão nacional, como o Flamengo etc), existem pessoas que até possuem simpatia por times nacionais mas também torcem para times estrangeiros – afinal, somos a periferia do mundo e bem disse aquele que citou a globalização para este fenômeno. Mas a culpa é deles? Não totalmente, pois se o futebol brasileiro fosse mais forte economicamente (e, para isso, o país precisaria ser) acho que fenômenos assim seriam mais isolados. Ao contrário, os europeus iriam torcer pelos nossos times, pois o melhor futebol do mundo vem daqui.

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