Torcidas Organizadas

(Parte 1/3) – Surgimento e Causas

TORCER: verbo transitivo irregular; demonstrar (o apreciador de prélios esportivos) com entusiasmo, gesticulando e gritando, o desejo de que vença o clube ou equipe de sua simpatia.

Simples assim… nada mais que isso? Ledo engano.

Desde sempre, em qualquer entretenimento, “preferências” eram despertadas; torciamos para o mocinho ou o vilão ao ouvir histórias, romanos declamavam a glória de seus gladiadores favoritos, atores e músicos levavam multidões aos teatro só com a simples menção de seus nomes… preferir algo era uma das formas de fazer parte, de compartilhar dos rumos que seu objeto de admiração assumiu – alegrando-se com seus êxitos, entristecendo-se com seus fracassos – e compor um grupo, uma unidade formada por um interesse comum que estabelece coesão e identidade. Torcer é não estar sozinho!

A torcida é metade da graça do futebol!

No futebol, aprendemos com os anos que você pode ignorar, simpatizar, gostar ou explodir por um clube ou seleção. Desperta graus diversos de paixão e importância em diferentes pessoas. Coisa normal, tão natural quanto viver ou morrer. Desde o tempo em que o esporte era disputado por amadores, onde elegantes senhores de suíças bem aparadas ficavam sentados com suas senhoras enquanto operários se espremiam entre as grades ou as voltas com um radinho para saber quanto ficou aquele  jogão de domingo, muita coisa mudou. O futebol se tornou profissional, rico e grande fonte de poder. E parte da torcida também. Aquele que simplesmente resolve pegar suas coisas, com ou sem amigos e família, para ver in loco seu time brigar por mais uma vitória sempre existiu e sempre irá existir, mas ele viu parte de seu espaço tomado pelos profissionais, especialistas, organizados.

TUSP:1ª organziada do Brasil

Como fenômenos sociais não tem data de nascimento – por mais que as vezes fiquemos tentados a lhes dar uma – é difícil apontar um começo. E cada país tem suas peculiaridades. Grupos organizados para torcer já existiam no começo do esporte na Inglaterra, mas sempre bastante circunspectos e de atuação limitada. As organizadas nos moldes que conhecemos hoje surgiram nos anos 50, e tiveram amplo crescimento no começo dos anos 60. Argentina, Inglaterra, Espanha, Alemanha… Brasil (nós tivemos como a primeira torcida a TUSP, do São Paulo, em 1939, mas muuuuito longe do modelo atual, tanto em atuação quanto em importância). Os países como um todo caminhavam a passos largos na busca do desenvolvimento econômico e no processo de aceleração urbana, porém, muitas vezes sem empregar a mesma vitalidade para resolver questões sociais. Não é possível avaliar realmente seu surgimento sem considerar aspectos políticos, econômicos e socioculturais vivenciados nas relações individuais e grupais nas sociedades onde nascem. O que sempre estabelecem é uma forte relação de coesão e identidade, muitas vezes de modo praticamente militarista.

Rangers x Celtic: rivalidade em campo e fora dele.

Na Escócia, por exemplo, as inimizades entre católicos e protestantes ganharam um modo de se exprimir nas arquibancadas. Na Alemanha, jovens egressos da sua parte oriental após a unificação, desempregados, jogados num novo país sem ao menos ter saído do antigo, engrossaram as fileiras de algumas das mais fanáticas torcidas do Mundo, fenômeno visto em Leipzig e Dresden. Precisavam fazer parte de algo, algo grande, forte e “acolhedor” àqueles que o defendessem assim como era o Estado comunista da DDR. Na antiga Iugoslávia, times de regiões diferentes eram marcados como aríetes das intenções separatistas de uma região contra a unidade forçada. Na Inglaterra proletários apoiavam times surgidos de sindicatos de seus setores; metalúrgicos, ferroviários, mineradores, etc. Um time sérvio jogando contra um croata, um montenegrino da parte protestante contra um da parte católica, todos eles serviam de alegoria para conflitos bem mais profundos. Todo este processo se repetiu e se expandiu: fazer parte de algo, ser acolhido, criar uma cara, um rosto, um ideal, e ainda com os agravantes que a pobreza e a falta de oportunidades podem gerar, os jovens se filiavam aos bandos às torcidas (repare que os filiados eram quase sempre jovens do sexo masculino… no Brasil e na Argentinas, em comparação com o resto do mundo, ainda mais novos, ingressando desde os 12, 13 anos).

União para fazer coisas boas…

As necessidades de suprir as chamadas “demandas de grupo”, evitar este tipo de solidão que é a de “não encontrar um lugar onde se sinta bem”, são sabidas por todos nós e partilhadas pela humanidade como um todo, seja onde for, independente de classes, religião ou sexo. Alguns encontram a satisfação deste desejo em clubes de futebol, outros em rodinhas de RPG, fã-clubes de bandas, comunidades religiosas… todos podem ser ótimas para o crescimento pessoal, lugar para fazer amigos, se divertir e trocar experiências. No caso do futebol, as coisas seguiram muito rapidamente um caminho bem simples; como já foi dito, as torcidas se organizaram para não perderem o passo em relação aos clubes no seu processo de crescimento, enriquecimento e profissionalização. Logo elas também se tornaram grandes, ricas e profissionais, com um grande potencial para atuar junto com o clube e desenvolver uma série de ações em prol do mesmo e de seus membros; ações sociais, mutirões, eventos em dias de jogos, festas de arrecadação, auxilio à comunidade, tudo em maior ou menor escala foi feito em algum momento, por muitas organizadas ao redor do globo… entretanto, ao meu ver é um potencial ainda muito mal aproveitado.  A característica que dominou (e domina) as imagens das organizadas por culpa delas sem duvida com diversos episódios que ratificam este julgamento, é a da brutalidade, do conflito, da violência. Tema do próximo post da série.

… e más…

PARTE 2

POR YURI MOLEIRO

Leitura indicada: TOLEDO, Luiz Henrique Torcidas Organizadas de Futebol, 1996

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2 responses to “Torcidas Organizadas

  1. It is indeed my belief that mesothelioma can be the most dangerous cancer. It’s got unusual characteristics. The more I look at it the greater I am convinced it does not act like a real solid human cancer. In case mesothelioma is a rogue virus-like infection, hence there is the potential for developing a vaccine and also offering vaccination for asbestos uncovered people who are open to high risk associated with developing future asbestos related malignancies. Thanks for giving your ideas for this important health issue.

  2. Pingback: Violência, esportes e fanatismo « Comunicação, Esporte e Cultura·

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