Torcidas Organizadas (Parte 2/3) – A violência como forma de expressão

Hoje, para a população em geral, falar de torcidas organizadas muitas vezes é falar de uma corja de bandidos reunidos para fazer arruaça, confusão e arrumar briga com os rivais. Essa visão, certamente, não é a mais correta, contudo, uma sequência de episódios de violência, intolerância e brutalidade injustificável envolvendo estes grupos consolidou esta imagem. Não é mais verdadeira, mas com certeza não é totalmente falsa. Ela tem um porquê, e quando o tempo tenta apaga-la, se renova na forma de mais violência.

Torcedores sérvios na Itália, em jogo pelas Eliminatórias da Eurocopa 2012…

Sejam hooligans, ultras ou barras (há diferenças significativas entre estes grupos, mas a priori vou restringi-las às formas de se organizar como torcida; o modelo brasileiro de uniformes combinando, com estrutura hierárquica reconhecida e associação formal, por exemplo,  não é o mais comum, já que a maior parte das organizadas fora do país se estrutura de maneira mais informal e independente, entretanto não menos coesa e unida) muitas torcidas ao redor do mundo se organizam e se manifestam através de uma cultura de combate. Os gritos, os brasões, as bandeiras, em geral, a torcida se une ao redor de uma idéia de enfrentamento, principalmente contra os principais rivais. Pelo futebol tratar-se de um esporte competitivo, isto ocorre naturalmente. Agora, muitas vezes este tipo de linguagem é extrapolada para além da representação simbólica, principalmente quando a torcida assume este risco, aceitando membros que aderem ao grupo como forma de se proteger e de acumular poder. Não há torcidas violentas sem indivíduos violentos que à conduzam!

… guerra de sinalizadores e jogo adiado.

Na relação entre organizadas e violência, há algumas mais e outras menos agressivas- tanto que há “graduações” de torcidas consideradas mais e menos perigosas – e com maior ou menor repressão e fiscalização das autoridades.

Na Europa por exemplo,Polônia, Sérvia, Rússia, Grécia, Turquia, Escócia e algumas partes da Alemanha e Itália são considerados grandes barris de pólvora em relação aos seu torcedores organizados: clássicos como Estrela Vermelha x Partizan, Olympiakos x Panathinaikos, Rangers x Celtic, são especialmente perigosos e raramente terminam sem ao menos uma ocorrência, fora ou dentro de campo. No velho continente, além da rivalidade esportiva, questões históricas e sociais latentes apimentam ainda mais estes confrontos; disputas religiosas, ideológicas e territoriais encontram eco neste grupos que fazem dos seus clubes representantes de uma causa, e fazem de seus torcedores, os soldados que as defendem. Isso muitas vezes levam os fanáticos a hostilizarem os seus próprios jogadores e dirigentes, quando algum age de maneira que eles julgam inadequada à “essência do clube”. Claro que toda torcida tem o direito (e deve, desde que sem violência) protestar contra as coisas que discorda em sua equipe. É uma maneira saudável de participar da vida da entidade. Agora, isto se torna um problema de maior magnitude quando há ofensas de cunho racista ou homofóbico como tem acontecido rotineiramente em alguns países. Por exemplo, no leste europeu, principalmente em Rússia e Polônia, este tipo de manifestação é assustadoramente comum, e a impunidade ainda impera em relação a tudo que vem das arquibancadas.

Preocupação extra para a UEFA na realização da Eurocopa de 2012, já que Polônia e Ucrânia (as duas sedes) são países grandes, com fronteiras relativamente porosas (o que dificulta a barragem de vândalos conhecidos das forças policiais) e com torcidas já famosas pela agressividade.

La 12: Barra do Boca Junior. Um belo espetáculo que poderia ser a melhor imagem do futebol argentino…

Na Argentina e em outras partes da América Latina, as “barras” são conhecidas pelo espetáculo (gritam o tempo todo, apoiam o time incondicionalmente, fazem uma bela festa com fogos, tambores, bandeiras e papel picado e são muitas vezes descritas como a alma e o motor das equipes, cobrando sempre muita entrega e garra dentro de campo) e por levar a violência no futebol a um novo patamar; o narcotráfico. Bem menos inflamadas por ideologias em comparação às torcidas européias, as barras são vistas muitas vezes como verdadeiros grupos mafiosos que se enfrentam principalmente pela motivação da disputa de mercado e território. Isto é claro, somente floresce em um cenário social que o possibilite, configurando não um fato isolado, mas uma reconfiguração do status quo. As fontes de rendas das barras se assemelham à das maiores organizações criminosas, e como tal, são das mais diversas naturezas, até para dificultar a repressão, e, muitas vezes contam com a anuência de clube (que paga pelo apoio), polícia (que recebe la plata) e políticos (que se associam e elas tendo-as tanto como curral eleitoral quanto como tropa de choque): entre suas principais fontes de rendas temos o narcotráfico (efetuado mesmo dentro dos estádios em dias de jogo), a venda de ingressos e material cedido pelo clube aos torcedores (camisetas, bolas, bandeirinhas, etc), o controle das áreas próximas ao estádio de sua agremiação com a proliferação de estacionamentos clandestinos (coisa que temos aqui no Brasil, mas ainda não nas mãos das organizadas) e até mesmo o financiamento direto: muitos membros das torcidas são “contratados” pelos clubes e por políticos da região para fazer só Deus sabe o que, recebendo quantias exorbitantes, como nos famosos casos de Adrián Rousseau e Alan Schenker, lideres da barra “Los Borrachos del Tablón”, associada ao River Plate, que recebiam do clube de 35 mil pesos (cerca de R$ 13.500,00) e ainda eram empregados num gabinete do governo municipal, sem nunca terem dado as caras, com um salário de mais  de 2.200 pesos desde Abril de 2001. Para fazer o que? “Servicinhos”…

De ingresso a drogas; vários mercados estão nas mãos de alguns destes grupos

Há casos ainda mais alarmantes como o das barras da cidade de Rosário, tanto a do Rosário Central quanto a do Newell’s Old Boys, que atuava com o aval das diretorias para pressionar os garotos da base e suas famílias (através de que meios? Fica a cargo da imaginação do leitor…) a repassar para membros da torcida partes de seus direitos federativos assim como, muitas vezes, o próprio oficio de agenciar a carreira do jovem jogador. Havia também a “mensalidade” paga por alguns jogadores e treinadores (em alguns casos que vieram a público, 10% do salário) para que a torcida diminui-se ou parasse de cobra-los e pressiona-los por maior desempenho ou resultados melhores. Um grupo que quando age criminosamente é extremamente lucrativo e utiliza a violência – como qualquer organização agindo a margem da lei – como forma de intimidação e de constituição de poder. Desde a década de 40, mais de 140 mortes já forem registradas em brigas de torcida no país. Um caso de rara gravidade no planeta, e especialmente preocupante para as autoridades que se viram muitas vezes sabotadas por seus próprios membros, como durante a ditadura onde muitos casos foram arquivados sem mais nem menos, suspeitos não eram interrogados e as vezes sequer citados nos autos dos processos. Magicamente desapareciam o autor, o crime e até mesmo o corpo!! Não é a toa que a maior partes dos casos de confrontos entre torcidas x torcidas e torcidas x polícia que terminaram em morte ocorreram naquele período…

Torcida organizada “Império Verde” do Coritiba invade o campo após o término do jogo que rebaixou a equipe no Brasileirão de 2009, contra o Fluminense no Couto Pereira.

No Brasil, o fenômeno é mais brando, mas igualmente explosivo. As maiores torcidas organizadas do país surgiram na década de 80 e sua consolidação ocorreu no fim da mesma e no início da década de 90. Não coincidentemente, esta época marcou o maior crescimento das organizadas e também a mais violenta fase das mesmas. Com a expansão, elas passaram a disputar força e respeito, aumentando os embates em número e gravidade. E como um caso de violência geralmente é seguido de retaliação… houve uma escalada nas agressões: em São Paulo, por exemplo, de 1992 a 1994 ocorreram 12 mortes envolvendo confronto entre torcidas. Além do maior número de confrontos, o uso de armas letais como bombas caseiras, facões e armas de fogo nas brigas (o que mostrava a intenção dos seus portadores de causar grave dano ao adversário). aumentou consideravelmente o número de feridos e mortos. Enquanto isso, o ingresso de associados nas principais torcidas de São Paulo saltava exponencialmente (Mancha Verde: 4.000 para 18.000, Independente: 7.000 para 28.000, Gaviões: 12.000 para 46.000; dados de outubro de 2005, recolhidos pelo Ministério Público do Estado de São Paulo), principalmente entre jovens de 13 a 16 anos. Isto além de revelar o fascínio pela violência que estes adolescentes possuíam (queriam a força e o respeito que não podiam conquistar em outro lugar) também revela a falta de critério das torcidas ao aceitar seus associados.

A partir de 1995, após seguidos casos de brutalidade e o emblemático assassinato de Márcio Gasparim, de 16 anos, que foi espancado e agredido a pauladas e no episódio conhecido como “Batalha Campal do Pacaembu” – onde Mancha Verde e Independente se confrontaram em 20 de agosto daquele ano – que resultou na morte do adolescente e em mais 101 feridos, medidas mais severas para coibir este tipo de evento foram tomadas: o promotor Fernando Capez ficou famoso como um dos principais “perseguidores” dos bandidos uniformizados, que eram muitos e viviam infiltrados nas torcidas como forma de proteção. Após levantamento, descobriu-se que em média 15% dos integrantes das organizadas tinham antecedentes criminais, boa parte por ações violentas. O aumento da fiscalização e a implantação de medidas preventivas – como a venda de ingressos antecipadamente e a identificação de todos os torcedores presentes no estádios – ajudou a diminuir estes casos, mas muitas vezes ainda esbarram na lentidão da justiça e na impunidade dos infratores. As melhorias foram claras, mas realmente ainda há muito o que fazer no país para assistir um jogo (ainda mais um clássico) despreocupadamente. Concordo com a teoria do promotor citado:

Este tipo de medida não resolve carências sociais, econômicas e culturais. A causa não é um problema de falta de fiscalização, é um problema de educação […] a idéia de ser contra a violência tem de partir da escola, da formação do indivíduo“.

Talvez esta questão nunca seja sanada sem a resolução de problemas mais profundos da sociedade. Tanto aqui quanto no resto do mundo.

Muitos avanços ocorreram e muitos vieram de parte das próprias organizadas, que lutam contra esta imagem negativa que corre na boca de todos, as vezes com mais, as vezes com menos razão…

Mas vamos entender melhor o papel das organizadas, como elas se tornaram poderosas e também falar de suas ações dignas de aplausos no próximo e último post desta série.

LINK PARA A PARTE 1

POR YURI MOLEIRO

Leitura indicada: TOLEDO, Luiz Henrique Torcidas Organizadas de Futebol, 1996

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8 responses to “Torcidas Organizadas (Parte 2/3) – A violência como forma de expressão

  1. Pingback: Torcidas Organizadas (Parte 1/3) – Surgimento e Causas | FUTEBOL E MEMÓRIA·

  2. caramba, põe o coro ki a torcida jovem santista deu na forcinha do vascú em 94…foi a primeira briga campal no Brasil se vc não sabe antes dessa do são paulo e parmeira

    • Obrigado pela informação que complementa o post =D

      Sem duvida o inicio dos anos noventa foi a fase mais violenta destas torcidas.

      YURI MOLEIRO

  3. Esses dados sobre o número de associados nas organizadas não estão corretos. Me associei na Torcida Independente em 1995 e meu número de inscrição era 32 mil e qualquer coisa…

    • Entendo. Poderia me passar os dados corretos? Não encontrei nenhuma outra fonte que corrobore sua informação, mas é sempre bom ter recursos para avaliar.

      Obrigado

      YURI MOLEIRO

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