Torcidas Organizadas (Parte 3/3) – Influência e Ação Social

Nesta última parte da série, vamos falar sobre dois aspectos presentes no cotidiano das Organizadas mas que são poucas vezes tratados na mídia: sua real influência dentro do clube e suas ações sociais.

Cobrar e protestar na arquibancada tudo bem, mas como justificar a entrada de torcedores no CT para ter uma “conversinha” com os jogadores?

Primeiramente, é difícil dissociar a torcida do clube ao qual ela se afilia. O público de forma geral é parte do espetáculo, torna o futebol vibrante, apaixonante,  fazem a festa ser tão maravilhosa. Torcida e clube se completam neste universo! No caso das organizadas, esta amalgama parece ainda mais forte, o que gera aspectos bons e ruins; se é sempre ela que esta presente em todos os jogos (até nos que não valem coisa alguma numa quinta-feira as 22 horas, com frio, chuva e trânsito bagunçado…), grita, incentiva, propaga hinos que enchem o estádio com as vozes de milhares, confeccionam bandeiras, instrumentos e embelezam a arquibancada, também são elas que pegam no pé de jogadores por motivos estúpidos, ultrapassam a cobrança e o descontentamento com diretoria e boleiros em atos mais hostis do que o aceitável, e muitas vezes – com o aval do próprio clube – invadem treinos, perseguem e assediam profissionais no pleno exercício de suas funções e servem de “massa de manobra” para facções politicas no seio de suas equipes.

Entram como elemento importante no “jogo de interesses” que permeia a administração da maioria dos time: servem de grupo de apoio à tropa de choque, dependendo do momento e da ação.Pode ser uma importante parceira ou uma implacável opositora.

As relações diretas entre Organizada e direção nunca ficam totalmente claras ao restante dos torcedores. São assuntos secretos, sussurrados pelos corredores entre dirigentes, conselheiros e representantes das torcidas. Até hoje é difícil saber a real influência destas agremiações nas decisões de um clube, mesmo dos maiores e mais expostos. Trocas de favores são comuns – nada ilegal de fato, talvez imoral e anti-ético – e vão muito além de descontos (ou fornecimento gratuito como é sabido) nos ingressos para os jogos. Mas as vezes é complicado saber realmente quem manda no que… e quem manda mais…

Ações sociais podem  salvar a reputação das organizadas

Agora, parando para falar de coisas boas, toda associação de pessoas unidas pelos mesmos interesses é uma força de ação potencialmente importante. Estas torcidas por muitos anos foram vistas apenas como baderneiros ignorantes que se atracavam por causa de futebol e carnaval. Até numa tentativa de mudar esta imagem extremamente negativa (e muitas vezes próxima da verdade), as organizadas reforçaram nos últimos anos a atuação do seu setor social: é a parte da entidade responsável por planejar, organizar e efetuar trabalhos voluntariamente, em qualquer ação que procure um beneficio para a comunidade. De início, muitas ações aconteceram em conjunto com os clubes, configurando uma interessante associação para aumentar a efetividade deste projetos, mas hoje, algumas organizadas já gozam de capacidade operacional mais ampla e podem realizar sozinhas ou em conjunto com outros grupos (até mesmo outras organizadas, que formam alianças entre si, num gesto sempre louvável de deixar as disputas e a rivalidade apenas para os gramados) suas atividades pedagógicas e filantrópicas.

Estes bons exemplos dificilmente são relatados na mídia, mas há excelentes projetos, com belos resultados:

Um exemplo ocorreu dia 21 de novembro de 2009; foi a data  da 1ª Ação Social Nacional de Torcidas Organizadas, projeto que contou com a Galoucura, Mancha Alvi-Verde e Força Jovem do Vasco, num mutirão para doação de sangue. Seus membros e outros voluntários participaram deste dia e rechearam os hemocentros designados. O evento já está na segunda edição, caminhando para a terceira.

Flyer da campanha

As medidas mais comuns são campanhas de arrecadação de alimentos, roupas, brinquedos e remédios, que sempre estão em voga, e tem sido muito bem implementadas pelas torcidas, principalmente em datas especiais como Dia das Mães, Páscoa, Dia das Crianças e Natal. São de mais fácil mobilização e atendem muitas vezes a necessidades mais urgentes de comunidades carentes. Um bom exemplo é o da Fúria Independente do Guarani, que atuou muito bem na Campanha Nacional do Agasalho e  com o S.O.S Nordeste ajudou a arrecadar e conduzir donativos para vitimas das enchentes de 2010.

Distribuição de ovos de Páscoa da Mancha Alvi-Verde

Mas ainda precisamos ver ações mais abrangentes, de caráter permanente e não apenas pontuais, esta ou aquela época do ano. Nisto as organizadas ainda engatinham, mas tem demonstrado a vontade necessária para se aprimorar e já tem algum projetos interessantes: os principais são ligados ações pedagógicas como escolinhas de futebol e de música, centros de inclusão digital, mutirões de saúde e tira-dúvidas acadêmicos e jurídicos. Temos bons exemplos na Gaviões da Fiel que por idéia do Mestre Pantchinho forma 30% de sua bateria na própria escola, com as crianças que frequentam e agremiação, sócias ou não, e da Mancha Alvi-Verde, que contou com um convênio com a prefeitura e o trabalho de assistentes sociais para oferecer aulas de música para quase 200 crianças.

A musica abre portas.

Os convênios são uma forma particularmente interessante de trabalhar para melhorias e beneficios para a sociedade. Seja com ONGs (por exemplo o convênio da Dragões da Real com a “Casa do Zezinho”, na Zona Sul de São Paulo, que começou com 12 crianças e hoje atua com mais de mil, dispondo de sede própria com ambulatório médico, oficinas, refeitório, piscina e quadras poliesportivas) e com o poder público, tanto em projetos sociais como no combate à violência nos estádios. Neste último, há o incentivo para melhorar o relacionamento entre torcidas e facilitar a troca de experiência e informações como no Seminário Nacional de Torcidas Organizadas, evento que ocorreu pela primeira vez em 2009. Nelas, representantes das agremiações debatiam entre si e com membros do Ministério dos Esportes, da Justiça e do Ministério Público medidas para diminuir a violência nos estádios. O objetivo deste tipo de evento fica claro nas palavras do (na época e atualmente) Ministro Orlando Silva:

O governo conversa muito com os dirigentes dos clubes e menos com as torcidas, que são a expressão da paixão dos clubes pelo futebol. Esta reunião é um meio de criar um canal de diálogo com torcedores e construir ambiente de paz nos estádios

Congresso Nacional de Torcidas Organizadas

Por certo, digo que bons exemplos não faltam, mesmo considero que muito mais pode ser feito. As organizadas crescem em arrecadação e influência a cada dia e devem usar esta energia em prol de seus membros e da sociedade. Ações existem e é preciso vontade, apoio e um voto de confiança nestes grupos para que possam desenvolver ainda mais seu setor social. Concordo com a teoria de que fiscalizar e observar é preciso, mas  o Estado não deve intervir nas Organizadas apenas como força policial. A capacidade de mobilização e engajamento destes torcedores é muitíssimo ampla e ainda pouco explorada. Sendo corretamente canalizada e contando com organização e planejamento para agirem, elas podem contribuir, e muito, com esporte, educação e cultura, levando a paixão pelo futebol ao seu melhor resultado possível.

Basta haver responsabilidade e boa fé de torcedores e Estado.

As partes anteriores: 2 e 1.

POR YURI MOLEIRO

Leitura indicada: TOLEDO, Luiz Henrique Torcidas Organizadas de Futebol, 1996

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