A Maior Final de todas as Copas – O Milagre de Berna

Uma história muitas vezes contada, mas não me canso de ouvi-la…
Quantos jogos espetaculares tivemos em decisões de Copas do Mundo!! Itália vencendo em casa a Tchecoslováquia por 2 a 1 em 1934 (de virada, com empate no tempo normal e gol de Schiavio na prorrogação), Uruguai vencendo o Brasil no Maracanã em 1950 (de virada também, Schiaffino e Ghiggia… como esquecer…), Argentina e Holanda em 1978, Brasil e Itália em 1994 na primeira decisão por penaltis numa final (o jogo em si não foi lá essas coisas, lembro bem…). Mas, a meu ver, a mais interessante foi a final de 1954 entre Alemanha e Hungria.

Um jogo memorável, a meu ver, deve conter uma série de elementos: algum grande nome, dinamismo, garra, importância (é bom quando um jogo vale algo não é?), reviravoltas, dramaticidade… e esta partida teve tudo isto!!! Isto e muito mais!!

Além é claro de que, graças ao fato de ser a primeira Copa com transmissão direta para a televisão, seus jogos tiveram maior audiência e visibilidade (a numeração fixa nas camisas inclusive surgiu nesta época, para facilitar a identificação dos jogadores na telinha).

Poster do Mundial de 1954

Na Suiça (um dos poucos países europeus mais ou menos poupados pela Segunda Guerra Mundial), o Mundial de 1954 ocorreu tranquilamente e teve a maior média de gols da história; 5,38, com 140 gols em 26 jogos. Boa parte deles por culpa da Seleção Húngara, que chegou para disputar o torneio credenciada como uma das grandes favoritas da competição. Formada com base na equipe do Honvéd (clube do país, ligado ao exército), era sem dúvida a melhor seleção de sua época. A equipe classificou-se para o torneio sem precisar jogar – os poloneses, únicos adversários a serem enfrentados, retiraram-se da disputa com receio de uma humilhação histórica – e não perdiam uma partida desde 14 de maio de 1950 (isso mesmo, 4 anos de invecibilidade, somavando 23 vitórias, 4 empates, 114 gols a favor e 26 contra em sua série invicta) e, ainda na fase de preparação para o Mundial, haviam sido responsáveis pela primeira derrota da Inglaterra no Estádio de Wembley por 6 a 3 (os ingleses pediram revanche… péssima idéia, levaram 7 a 1 em Budapeste), haviam conquistado a medalha de ouro nas Olimpíadas de Helsinque em 1952 e contavam com alguns dos melhores jogadores da época, como Kocsis, Lantos e obviamente, Puskás (o carinha lá no Hall da Fama). Eram conhecidos por seu estilo extremamente ofensivo (em todos os jogos desta copa marcaram 2 a 0 em menos de 20 minutos), de muita velocidade, sempre mantendo a posse de bola e pressionando os adversários logo no seu campo de defesa. Era um abafa do começo ao fim, proporcionado por dois fatores principais: a equipe contava com um excelente condicionamento e recuperação física (fruto de técnicas militares de preparação física aplicadas a um esporte que ainda engatinhava neste quesito e via atividades como alongamento e aquecimento como algo incomum) e um esquema tático inovador. Considerado por muitos o “precursor do carrossel” – que veriamos no seu ápice com a Holanda de 1974 – organizavam-se num esquema WM mais maleável que o habitual (na verdade era um WW se olharmos bem), os jogadores possuiam liberdade para inverter posições e o treinador Gusztav Sebes, compreendeu bem as necessidades do time e as fraquezas dos adversários quando recuou um homem de meio-campo para ser o primeiro quarto-zagueiro (Zakarias) e adiantou um armador para ser um centroavante (ou recuou um centroavante para ser armador? Nunca entendi direto, só sei que era Hidegkuti).

Esquema tático húngaro

Já a Seleção da Alemanha Ocidental era um time muito menos impressionante. Fortissima na marcação, com um WM rigido e baseado no elenco do Kaiserslautern (na época, campeão nacional), possuia o tipico estilo germânico da época: forte marcação em todos os setores, saidas rápidas em bloco sobre o adversário no contra-ataque, laterais trancadas onde seus ocupantes raramente passavam do meio e pressão pelo jogo aéreo e com a chegadas de homens surpresa do meio. Destaque para os irmãos Fritz e Ottmar Walter, que puxavam o time de trás para o ataque quando a seleção sofria muita pressão. Dirigidos pelo estrategista – no bom sentido – e meticuloso estudioso do esporte Sepp Herberger (o técnico mais longevo na seleção alemã, pois a dirigiu de 1936 a 1942 e de 1950 a 1964, 21 anos a frente da Mannschaft), era uma equipe coesa, unida e comprometida com a competição que poderia devolver um pouco de auto-estima ao combalido – e recém dividido – país. Se não brilhava pela plasticidade, certamente no quesito espirito de grupo se sobressaiam.

Não jogavam bonito, mas eram um grande time

Ambas as futuras finalistas cairam no Grupo 2, com Coréia do Sul e Turquia. Estrearam ambas no dia 17 de junho. A Alemanha Ocidental venceu a Turquia de virada por 4 a 1 e a Hungria, como era de se esperar, aplicou 9 a 0 nos coreanos… fora o baile! Na rodada seguinte, as duas equipes se enfrentararam, e o que foi um movimento reprovável de inicio provou-se uma jogada de mestre na história: Sepp resolveu entrar para a disputa do dia 20 com seu time reserva! Time B da Alemanha em campo. Na Basiléia, a Hungria jogou em ritmo de treino para fazer 8 a 3 contra os alemães. Puskas foi caçado em campo, terminando a partida machucado (mas ainda sim saiu com um gol marcado). A imprensa toda voltou-se contra o treinador e seus jogadores. O resultado era humilhante e poderia botar toda competição em risco. Na verdade, ele sabia que a Hungria era o adversário a ser batido por todos naquela Copa não pretendia mostrar suas melhores armas aos adversários, e nem correr o risco de ter seu time principal desmoralizado diante de uma equipe mais técnica. Sacrificou os reservas e a si mesmo para poupar seus craques, que não foram axincalhados e atirados aos leões. E ainda conseguiu – a ordem era bem clara – balear o principal jogador adversário (tática eficaz… e antiética)!! Puskas sofreu com os duros golpes dos zagueiros e aos 15 minutos do segundo, sofreu uma entrada por trás de Liebrich, não teve apoio na queda e torceu seriamente o tornozelo. Sem condições sequer de caminhar ao vestário, ficou sentado na linha da lateral, onde exibiu aos jornalistas a perna inchada. Resultado: a estrela do magiares ficava de fora dos próximos jogos.

Com isso, precisariam arriscar um jogo extra contra a Turquia (lembrando que pela formula da competição, quem vencesse duas vezes já se classificava como primeiro e adversários que estivessem empatados com o mesmo número de pontos disputavam um jogo-desempate), onde venceram por 7 a 2, o que não serviu para que as criticas fossem amenizadas.

Garantidos na próximo fase, o mundo olhava uma com admiração e a outra com desconfiança.

Puskás, cerebral, veloz, decisivo, como sua seleção.

A Hungria seguia encantando e derrotando oponentes capacitados. Não havia adversário forte o bastante para seu futebol ofensivo, envolvente e dotado de uma velocidade e dinamismo diferenciados. Pareciam sempre estar um passo adiante das seleções rivais, tanto fisico, quanto técnicamente. Eliminou nas quartas e na semi os dois finalistas da Copa anterior, começando pelo vice: 4 a 2 contra o Brasil. A partida, violenta, teve três expulsos e tornou-se no fim uma verdadeira batalha campal, daí o apelido histórico do duelo: “A Batalha de Berna” (em que até o contundido Puskas participou). Depois veio o Uruguai, atual campeão,  e nova vitória por 4 a 2. Já a Alemanha penou um pouco de inicio enfrentando a Iugoslávia, vencendo por 2 a 0, e depois passeou sobre a desgastada Áustria (que se classificou numa heróica vitória sobre os donos da casa por 7 a 5, mas que custou muito fisicamente ao time) vencendo por 6 a 1.

Decretada a final, que teria uma reedição do duelo da primeira fase, com os espectadores enamorados do belíssimo futebol Húngaro e de seu valente capitão Puskas, que mesmo não estando totalmente recuperado, convenceu o técnico Sebes a coloca-lo em campo. A Alemanha entrava como franco-atiradora, era um time técnico e forte, mas de futebol manjado e jogadas previsíveis, tipo de oponente favorito dos húngaros, que sabiam explorar esta fraqueza. Os azarões haviam superado adversários mais um pouco mais frageis que sua rival e, mesmo que os jogadores principais não tenham sido os responsável, pesava sobre o time a aura da desconcertante goleada sofrida na primeira fase.

Ninguém em sã consciência deixaria de apostar na Húngria. A embaixada húngara na Suíça havia planejado uma grande recepção para os jogadores no dia seguinte à final com a presença de vários convidados especiais e jornalistas. Em Budapeste, um selo comemorativo foi impresso antes do tempo e 17 estátuas foram erguidas no Népstadion, atual Estádio Ferenc Puskás, em homenagem aos jogadores da seleção do país. O melhor time do Mundo, com o futebol mais bonito não acabaria de novo como vice no Mundial. Já sofreram esta derrota na final da Copa de 1938, diante da Itália, que na época, era superior. Mas isto não aconteceria de novo!! Não de novo!! Apenas um milagre colocaria a Jules Rimet nas mãos da Alemanha Ocidental… apenas um milagre…

(***)

Fritz Walter, o Capitão

Dia 4 de Julho de 1954. Berna, Suiça. Estádio Wankdorf (demolido em 2001 e que hoje dá lugar ao Stade de Suisse) lotado, 60 mil pessoas. Um dia que começa nublado para depois, pouco tempo antes da partida, marcada para as 17 horas, ser abalado por uma tempestade daquelas.  Estes dias com chuva torrencial, que deixam o campo pesado e barrento ficaram conhecidos por “dias com tempo de Fritz Walter” na Alemanha. Pode usar a expressão lá que todo mundo entende. O capitão, diziam, jogava melhor na chuva. Este clima, dizem, foi interessante para os germânicos, que veriam uma Hungria contando menos com os suas principais armas; o toque de bola e a velocidade. Dizem que contavam com as chuteiras diferenciadas da Adidas, com travas intercambiáveis que – reza a lenda – eram melhores para o campo naquele estado.

Em todo caso, as equipes entram em campo com o que tem de melhor. Húngaros favoritíssimos, calmos e aquecidos, alemães aparentando concentração e seriedade. Seria o jogo entre duas nações que representavam duas escolas diferentes no futebol e todos estavam de olho. Começa o jogo e a profecia da imprensa mundial se confirma: em menos de sete minutos, 2 a 0 para a Hungria!! Puskas, mostrando que realmente estava bem o suficiente para jogar, bate rasteiro e marca o primeiro. Logo em seguida, Czibor amplia numa falha da zaga germânica. Não há chuva que impeça o poderil dos magiares. E o Golias esmagava Davi sem a menor piedade…

Mas é de momentos como este que o futebol é feito: de instantes de nervosismo, apreensão, medo… sentimentos que devem ser controlados e transformados em mais força, velocidade, concentração… só assim a vitória viria! Só assim, ainda mais para aqueles que, por serem mais fracos, sabem que tem de se multiplicar em campo para superar o mais forte. Só assim. E para este momento da histórica partida, só cabem as palavras do próprio Frtiz Walter em sua biografia:

“Olhávamos uns para os outros completamente abalados, mas ninguém falou nenhuma palavra de repreensão nem para o Kohli [que recuou mal a bola no gol de Czibor] e nem para o Toni [o goleiro]. Quando corremos para colocar a bola no centro de campo novamente, Morlock tentou minimizar os problemas. Ele gritava: ‘Isso não muda nada’, enquanto o meu irmão, Ottmar, que também não tinha perdido as esperanças, engrossava o coro dizendo: ‘Fritz, vamos lá, ainda vamos conseguir.'”

Um jogo duríssimo, como poucos já visto!

E assim foi. O time não se abateu. Não havia tristeza, mas sim vontade. Vontade de vencer, de superar, de calar a calorosa torcida. Não tinha nada a perder, mas tinha, sim, tudo a ganhar. A equipe começou jogando para valorizar a posse de bola e com a linha de marcação recuada para congestionar a entrada da área, mas agora o time não poderia ficar tão atrás. Deveria avançar, sem deixar se ser compacto. Contra-ataque em blocos, essa era a proposta. Ai vem a surpresa que fica na caixinha desse esporte chamado futebol: a Hungria já havia chegado 4 vezes em menos de 10 minutos, a Alemanha iria se lançar ao ataque pela primeira vez para tentar diminuir o prejuízo. Boas chances dos magiares aproveitarem a ofensiva alemã para aumentarem ainda mais o placar. Eram melhores e sabiam disso. Mas o imponderável, as vezes, dá as caras. É caprichoso como ele só! Numa subida, logo após o segundo gol, o ex-reserva Rahn bate de fora, cruzado… a zaga húngara apenas olha a bola passar pela extensão da área, quando é surpreendida pela boa chegada de trás de Morlock, que empurra para as redes. 2 a1. Dez minutos de jogo, 3 gols. Alemanha viva no jogo!! Ânimo renovado, jogo esquentando e ainda ficaria melhor. A Hungria tenta com Puskas que quase marca, mas no lance seguinte a Alemanha também assusta. Chute que vira escanteio, escanteio que vai para área, novamente passa por todos e vira gol. Bolas paradas, salvando equipes mais limitadas desde que o Mundo é Mundo!! Rahm marcou e empatou o jogo. O estádio, incrédulo, se empolga. Estão vendo um jogaço!!

Germânicos em alta, a todo pique, hora de ir pra cima certo?

Errado.

O adversário é a Hungria, a poderosa, a invicta, a fodona!! A Alemanha tenta sair, se abre um pouco atrás e como se espera, toma contra-ataque!! Que logo vira dominio húngaro no campo ofensivo, valendo-se da maior facilidade em ocupar espaços e girando a bola para tentar espalhar os alemães pelo gramado. A chuva não impede o toqe de bola. Atrapalha, mas não impede. Logo a maior posse da pelota vira pressão, que logo vira uma finalização atrás da outra. Acha que é fácil atacar quem é superior a você? Vai nessa vai… os alemães se recompõem atrás, tentam sair quando é possivel e a equipe de Puskas, para variar, esta a frente, tentando o gol, fazendo por merecer e esperando encontrar a vitória. É chute, chute, cabeceio, chute… e nada!! Volume de jogo eles tem de sobra, mas as chances criadas não terminam em gol. Ora erro do ataque, ora mérito da zaga, ora habilidade do goleiro Toni Turek, numa exibição fenomenal. Pra fora, na rede pelo lado de fora, na zaga, no juiz (que poderia ter marcado um penalti muito claro em Kocsis, puxado pela camisa ao entrar na área), na trave, no travessão… os magiares estavam abusando da sorte!! Ou esbanjando azar. A Hungria inexplicavelmente termina o primeiro tempo sem mais nenhum gol na conta e o Mundo, via, boquiaberto, o empate contra a Alemanha Ocidental, que após os gols, só teve chance no finalzinho – com Schäfer e Rahn batendo no rebote – ao pegar os magiares recuperando o fôlego após o incessante ataque. Atenção nesta última frase; ela define o que foi o segundo tempo.

Hungria no ataque! Pressão, pressão, pressão... mas nada de gol!

O bombardeio continuaria na etapa complementar? Provavelmente. O técnico Sebes tenta renovar o espirito de seu grupo, frustrado pelas últimas chances perdidas e pelo resultado inesperado. Já Sepp, quer apenas que o time mantenha o bom ritmo. Posiciona um pouco melhor o meio-campo e avisa:

Pessoal, o que vocês fizeram até aqui foi algo excepcional […] continuem assim no segundo tempo e não deixem nem um milímetro de campo para o adversário.

Palavra de um treinador deste calibre é lei. E foi cumprida a risca. Na volta para o jogo, os húngaros demonstravam mais coragem para não ceder ao cansaço e finalmente superarem a defesa alemã. Já os germânicos estavam convencidos de que o bicho não era tão feio assim; a Hungria era melhor, mas não era invencível.

Na etapa final, a chuva se intensifica!! Parece realmente querer marcar sua presença na final. A bola rola e aparentemente nada muda… os magiares vão bufando ao ataque! Por duas vezes, o ataque da Hungria conseguiu passar pelo goleiro Turek, mas Josef Posipal e Kohlmeyer tiraram a bola em cima da linha. Puskás, Czibor e o meia-ofensivo Nandor Hidegkuti levavam muito perigo ao gol, mas os alemães lutavam como nunca e se atiravam em todas as bolas que eram chutadas. Ai já era azar demais… demais… o primeiro tempo quase todo e mais uns 20 minutos passados da segunda etapa e ainda sim, a vitória não vinha. As duvidas começavam a ressoar pela arquibancada e provavelmente também frequentavam as cabeças dos jogadores: será que mesmo menos técnicos os alemães não tinham mais vontade de vencer? Será que garra, entrega e disposição poderiam superar habilidade? Será?

Talvez… veriamos ao fim do jogo.

A Hungria cansou mentalmente antes de cansar fisicamente. Sabe quando você não consegue passar de uma fase dificil no video-game? Luta, luta, quaaaaase chega lá… quaaaaase… quando vê já passou 1o horas na frente da tela a base de Trakinas e Coca-Cola e  não superou o maldito desafio… nestas horas, a cama te chama e você só torce para, ai sim, conseguir no dia seguinte. A meu ver, foi o que ocorreu. Eles viam os alemães não se dobrarem, sujos e encharcados como eles, talvez tão cansados quanto (porque mesmo com o desgaste maior antes da partida, no jogo a Hungria fez a Alemanha Ocidental correr atrás da bola o tempo todo). Os magiares sentiram sim o desâmino que se somou ao cansaço para diminuir a pressão que exerciam. A Hungria não avançava mais de forma impetuosa como outrora, embora ainda arriscarem, esporadicamente, boas subidas pro ataque. Estavam abatidos, surpresos e fatigados. Os alemães perceberam… viram o super time tornar-se um time comum, viram que apesar do 2 a 2, haviam vencido o adversário na força de vontade. E a Alemanha Ocidental, empurrada pela possibilidade de um feito histórico, soube que era a hora de domar a fera, realizar o até então inimaginável… operar um milagre…

O time do Capitão Walter manteve o jogo cozinhando como pode, fazendo alguns ataques, gradativamente aumentando a presença ofensiva. Ofensivamente, não eram tão ferozes quantos os hungaros, a pressão não era a mesma. Não buscavam o nocaute, queriam vencer por pontos e a prorrogação parecia o caminho. Mas percebiam, a cada instante, que sua idas a frente não encontravam mais muita resistencia. A Hungria ainda tentava atacar, mas também não era mais aquele tormento. Faltava agora o que havia sobrado no jogo até então: chances claras de gol. Ninguém merecia marcar naquele momento, mas quem disse que o futebol funciona assim?

Aos 39 minutos do segundo tempo, a Alemanha Ocidental se arruma para mais um ataque. O time sobe em bloco, com alguns homens abertos pelos flancos. Mais uma vez, melhor ficar com a descrição dos que lá estavam. Assim narrou o locutor alemão Herbert Zimmermann:

Agora a Alemanha avança pela lateral esquerda com Schäfer. Schäfer passa a bola para Morlock — afasta a zaga da Hungria. A bola sobra para Bozsik, sempre Bozsik, o meia-direita húngaro. Ele tem o domínio da bola, mas perdeu para Schäfer — Schäfer manda a bola para a área — a zaga afasta de cabeça. Rahn apareceu por trás, ele precisa chutar, chutou e é gool, gool, gool! A Alemanha faz 3 a 2!

Terceiro Gol alemão, marcado por Rahm

3 a 2. O abatimento húngaro é visível, mas ainda há espaço para esperança. O time tenta renovar seu dominio e se lança com suas reservas restantes de energia para o ataque. Aos 42, Puskas recebe na area, vê bem a saida do goleiro e toca por baixo. 3 a3!!!! Não… gol anulado. O árbitro William Ling não valida o lance e o jogo segue. Era a ducha de água fria que faltava. A Hungria não conseguia mais. Se debatia em areia movediça, não acreditando que havia nela caido. Tristes antes do fim. O apito final só lhes encerrou aquele pesadelo.

Fim de jogo. Festa alemã!

O tal milagre havia ocorrido.

Capitão Walter com a Taça (na ultima vez que ela foi entregue pelo próprio Jules Rimet)

Berna antes apoiando os húngaros, ovacionavam a raça da equipe germânica. A imprensa invadia o gramado, estapeando-se para tirar uma foto dos novos heróis. A histéria era total. Os jogadores se abraçavam no gramado, o treinador comemorava com o banco.

O futebol via mais um de seus momentos magicos onde o fraco desacreditado vence o forte entusiasmado. O triunfo da força, da luta, da vontade contra a técnica.

Uns dizem que isto é ruim para o esporte, que hoje vê cada vez menos espaço para a habilidade diante de truculência. Eu discordo.

Em 54, 74, 82, o esforço venceu a beleza. Em 58, 70, 86 e 2010, o oposto. Há espaço para ambos no futebol, sinceramente, o melhor é que andem juntos.

Porque nem sempre acontecem milagres tão sensacionais quanto naquele dia chuvoso.

POR YURI MOLEIRO

P.S: Além de questionarem lancem do jogo, como um penalti não marcado um gol de Puskás no fina da partida que foi anulado, muito se fala até hoje sobre a possibilidade de os jogadores da Alemanha Oriental terem disputado aquela partida sob os efeito de alguma substância que incrementasse seu desempenho atlético, configurando dopping. Fato possivel, já que não havia controle sobre isso na época. Há um estudo muito sério sobre o caso conduzido pelo historiador esportivo Erik Eggers, da Universidade de Humboldt, em Berlim. Há indicios, mas nenhuma prova contundente até hoje. Até segunda ordem, o episódio segue como narramos.

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One response to “A Maior Final de todas as Copas – O Milagre de Berna

  1. Adorei o post! Vi o filme sobre o jogo que saiu em 2008 e é realmente uma grande historia de superação e companheirismo.

    E ainda conheci varias informações novas sobre o episódio, parabens

    Beijos,

    Claudia, 36 anos, Recife

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