Ademir, o Divino: a arte e a elegância dizem adeus ao futebol

via Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 22/01/1984

 

 

Depois de alguns anos de omissão chega a despedida de Ademir da Guia. Uma pequena dose de reconhecimento para um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. Logo mais, no Canindé, estará deixando oficialmente os gramados, o Divino Maravilhoso – sinônimo de elegância, arte, inteligência e beleza.

 

Durante treze anos, a estabilidade do time do Palmeiras chamou-se Ademir da Guia. As difíceis disputas, as crises inflamadas no clube e as incompreensões não foram suficientes para tirar de Ademir da Guia o símbolo da carência. Ao longo do período que passou dentro da equipe do Palmeiras, teve ao seu lado, jogadores medíocres e profissionais de enorme talento. Concedeu aos mais jovens o orgulho de poder assimilar um pouco do seu exuberante futebol.

Ademir da Guia começou a jogar pelo Bangu e foi contratado pelo Palmeiras em 61. Esperou dois anos, até que Chinezinho, o titular da posição, fosse vendido para a Itália. Aí sobrou Hélio Burini. Disputou e ganhou um lugar na equipe, por decisão do técnico Geninho. Nunca mais perdeu a posição de titular.

“Sempre aceitei o fato de ser titular como algo passageiro. Felizmente, para mim, durou muitos anos, mas sempre pensei que a posição e a camisa não eram minhas. O futebol é implacável. Uma troca de técnico, uma fase ruim podem determinar a saída de um bom jogador de um time. Já vi muitas pessoas se magoarem profundamente por acreditar que as posições lhe pertenciam. No futebol, vale o presente.”

Ademir da Guia nunca foi goleador, um jogador vibrante e era difícil a sua comunicação com os torcedores.

O futebol de Ademir da Guia aflorou mesmo, no Palmeiras. Considerado pelos mais críticos analistas do futebol como “um grande jogador”. Um grande jogador de uma só camisa. Participou de apenas uma Copa do Mundo, a de 1974.  Mas quase não jogou.

Ademir da Guia não é um homem emotivo, é frio. Atingiu um ponto elevado dentro do futebol brasileiro, sem contar com uma grande arma: o gol. Tímido, calado, olhos pequeninos e brilhantes, cabelos amarelo-escuros, pele bem clara. Fugiu totalmente ao espírito alegre e eufórico do povo do Rio de Janeiro.

Há torcedores do Corinthians que ainda perdoaram o técnico Rato, que dispensou da Guia, com 14 anos, por considerá-lo lento demais. E uma presumível lentidão tornou Ademir um dos maiores injustiçados do futebol brasileiro. Suas passadas largas, elegantes, tornavam seu futebol eficiente, vistoso e objetivo.

Milhares de pessoas torceram para que Ademir fosse convocado e escalado em seleções. Nada adiantou. Foi convocado várias vezes, mas só jogou mesmo, meio tempo contra a Polônia.

Embora tenha deixado o time do Palmeiras há 6 anos, somente agora terá a sua festa de despedida do futebol.  E mesmo assim graças a uma enorme pressão por parte dos jornalistas esportivos. O Palmeiras não teve saída: precisou promover o jogo final. Uma questão de respeito.

Durante muitos anos, o time do Palmeiras desenvolveu o seu ritmo de jogo, ao compasso de Ademir da Guia. Tinha no “Divino” o regulador do seu desempenho técnico e tático. Era o cérebro da equipe, a própria filosofia em campo.

Até mesmo os que consideravam Ademir da Guia “excessivamente clássico e lento” viram o time do Palmeiras veloz, tocando rápido na bola, com deslocações perfeitas e acima de tudo, atuando com praticidade. Graças a Ademir da Guia.

Assim como muitos torcedores do Corinthians não perdoaram a ineficiência dos critérios de avaliação do treinador Rato, os amantes do Bangu não perdoaram até hoje os antigos dirigentes que venderam Ademir da Guia ao Palmeiras, como um “bonde”. Até os 14 anos, Ademir também participava de competições de natação e ganhou inúmeras medalhas na categoria “borboleta”.

No dia 18 de setembro de 1977, contra o Corinthians, no Morumbi, Ademir da Guia jogou pela última vez com a camisa do Palmeiras. A sinusite crônica impediu que ele atuasse mais de meio tempo de jogo. Picolé entrou em seu lugar, por determinação de Jorge Vieira, e o Corinthians venceu a partida por dois a zero.

Quase vinte anos de carreira e muitos títulos: campeão paulista (63, 66, 69, 73 e 76), campeão brasileiro (65, 67, 69, 72 e 73) campeão do Troféu Carranza, na Espanha (69, 74 e 75), campeão do Torneio Laudo Natel e do Torneio de Mar del Plata (Argentina em 72).

E hoje, finalmente, Ademir da Guia vai receber um pouco daquilo que o futebol lhe deve. Será uma festa sem grandes pompas e deve até ser considerada discreta para a importância de Ademir da Guia. Mas valeram os esforços dos amigos, de alguns dirigentes sinceros e de grande parte da imprensa. Era um débito que precisava ser saudado.

Nos últimos anos, Ademir da Guia enfrentou inúmeros problemas e situações desagradáveis. Ficou quase esquecido percorrendo as alamedas do “Palestra Itália” e continua sentindo constrangimento quando se dirige ao caixa do clube para receber o salário mensal. É funcionário do departamento amador, mas com funções indefinidas. Ainda é respeitado pelos velhos funcionários e por gratos dirigentes, mas também foi olhado com indiferença por pessoas que jamais deram alguma glória ao Palmeiras.

Baixou os olhos, caminhou devagar e continuou pensando na ingratidão. Ademir da Guia nunca fez contratos milionários. Ele sempre gostou de jogar pelo Palmeiras e não fazia exigência nas suas renovações contratuais. Não ganhou muito dinheiro, não formou um grande patrimônio e nunca soube tratar com sabedoria certos investimentos feitos. Os resultados não foram bons.

Os dramas foram se acumulando. Atritos familiares, pronunciamentos irônicos de falsos amigos e aqueles que corriam atrás de autógrafos e abraços, fingiram não conhecê-lo.

Tentou trabalhar no setor de vendas e sua timidez foi fatal. Não teve sucesso e o seu jeito humilde o impedia de anunciar publicamente os seus problemas e pedir ajuda. Nunca deixou de ter o carinho e respeito do compadre Luís Pereira e do ex-centroavante César.

O Ademir da Guia disse Luís Pereira – “merece um busto dentro do Palmeiras. Sempre foi sério, honesto, leal e jamais criou um inimigo. Além do mais, em toda a história do Palmeiras, é difícil ter encontrado um jogador tão bom quanto ele foi. O time jogava através dele.”

“Esse jogo da despedida é muito pouco. O Ademir da Guia merece muito mais. Deveria estar numa situação financeira tranqüila e cercada da maior atenção. Ou trabalhando no Palmeiras numa função importante ou mesmo num outro clube ou numa empresa de prestígio.”

“Claro, sou seu amigo e talvez até considerado suspeito, mas continuo considerando o Ademir como um homem sofrido, injustiçado, e vítima da sua própria inocência e lealdade.”

Extrovertido, brincalhão, César torna-se sério para falar sobre Ademir da Guia:

“O Ademir da Guia foi o meu padrinho dentro do Palmeiras. Sempre me ajudou e me incentivou em todos os momentos. Entrei de cabeça nesse movimento que vai realizar o jogo de despedida do Ademir. Tomara que a renda seja boa, que muita gente boa participe e que o Divino tenha boa parte dos seus problemas resolvidos.”

“Ele sempre teve juízo, sempre foi um excelente profissional. Foi o maior jogador da história do Palmeiras e muito respeitado pelos torcedores, mas nem tanto pelos dirigentes…”

O companheiro inseparável de Ademir da Guia, Dudu, com os olhos molhados, fala de maneira direta:

“O Ademir da Guia precisa da ajuda de seus amigos e daqueles que acompanharam tudo que ele fez pelo futebol e pelo Palmeiras. O clube que defendeu por tantos anos tem dezenas de conselheiros industriais e comerciantes. Eles deviam ajudar o Ademir. Ele não sabe vender nada, mas ele seria uma excelente pessoa para lidar com relações públicas.”

“Toda grande firma precisa de um homem para receber as pessoas, em reuniões, simpósios, palestras ou mesmo nos seus pontos de venda. Vários jogadores trabalham assim e o Ademir da Guia também poderia fazer isso. Mas ele não sabe pedir. Espero que bons palmeirenses se aproximem e façam algumas propostas de trabalho ao Divino.”

“Ele foi maravilhoso para o Palmeiras e incrível para o futebol. Lotou muitos estádios e arrancou alguns aplausos até dos adversários. O seu futebol realmente era bonito e elegante. E nunca foi irresponsável. Se teve falhas, foram a inocência, a amizade, o idealismo, a sinceridade e enorme honestidade para as pessoas e com a profissão.”

 

Os últimos trinta e cinco minutos

Está tudo pronto para a festa de despedida de Ademir da Guia. Ele jogará 35 minutos e depois, acompanhado por todos os jogadores, dará a sua última volta em torno de um gramado.

Será a sua despedida oficial. Em seguida, Ademir da Guia receberá homenagens do Palmeiras, através do presidente Pascoal Giuliano. Depois, em nome da Federação Paulista de Futebol, o vice-presidente Armando Ferrentini entregará uma placa de prata e também o diploma Belfort Duarte, em nome do general César Montagna, presidente do CND.

Ademir da Guia será homenageado pela Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (ACEESP), através do vice-presidente, Wanderley Nogueira e pela Associação Brasileira de Cronistas Esportivos, representados pelo presidente Aroldo Chiorino. Finalmente, a Secretaria de Esportes e Turismo, com Caio Pompeu de Toledo homenageando Ademir da Guia, encerrando as manifestações de respeito ao jogador.

Todo o produto das bilheterias ficará para Ademir da Guia, que também recebeu a taxa de televisionamento direto, paga pela empresa Promoção, através da Televisão Bandeirantes.

Nos próximos dias, Ademir acertará seu ingresso numa importante organização empresarial para atuar no departamento de relações públicas.

 

 

Palmeiras X Amigos do Ademir

Local: Estádio do Canindé

Horário: 11 horas

Árbitro: Roberto Nunes Morago, auxiliado por Reinaldo Teixeira e Cláudio

Amaral.

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