Cavamos nosso próprio abismo

Eu tenho uma teoria: enquanto o futebol era pouco profissionalizado, ou melhor, pouco modernizado, o Brasil se destacava pelo talento individual e por ter jogadores que conviviam a carreira inteira com as grandes rivalidades de um país com muitíssimos times grandes (ao contrário de outros jogadores que ficavam em seus países com dois ou três times grandes). O nível do campeonato brasileiro era alto e nós tínhamos gênios jogando futebol por aqui. Por consequência, nos destacávamos; Quando os outros países modernizaram o seu futebol e estrutura (categorias de base inclusive) nós perdemos espaço – por não termos feito o mesmo.

É claro que cada país tinha seus gênios e seu jeito próprio de jogar futebol, e dai apareceram uma Holanda, Alemanha, Itália, enfim. E mesmo com grandes outras seleções, o Brasil estava sempre forte na disputa pelos títulos internacionais ou mesmo vencendo, porque a diferença de estrutura e profissionalização não abria um abismo entre nós e a Europa (falo de década de 50 até 80).

Alguns dos outros países se profissionalizaram ao máximo, organizaram o futebol, os campeonatos, as táticas, os estádios e, principalmente, os centros de treinamento e categorias de base. O Brasil, que já ficaria atrás por não ser um país tão rico, ficou mais ainda por estar muitíssimo atrasado nesses quesitos – e agora deixa de aproveitar anos de economia tão aquecida quanto os que vivemos. Nossa Seleção já a muito tempo não encanta, já há muito tempo não tem um time envolvente e que impõe o ritmo do jogo como era nosso costume. O próprio Guardiola nos deu uma aula na entrevista coletiva depois do Barcelona x Santos falando mais ou menos assim: “o Barcelona simplesmente toca a bola, e pelo que meus pais e avós me falaram é justamente isso que o Brasil fazia, não é?”. O futebol de nosso país teve um baque: a derrota do futebol artístico e fatal da Seleção de 82, e uma nova derrota em 86. Dai em diante consagramos técnicos retranqueiros, a Seleção campeã em 94 não encantou, valorizamos mais a força do que o bom futebol, o toque de bola. E isso tudo sob uma organização pífia e corrupta no futebol, com dirigentes ditadores, pouco investimento nas categorias de base, pouco trabalho dedicado aos garotos, um trabalho nas seleções de base (sub-20, 17, 15) sem sequencia, sem planejamento a longo prazo, estádios ruins, gramados ruins, nenhuma marketing dos campeonatos organizados.

Vemos uma decadência flagrante. Desde que nossos últimos craques envelheceram, o Brasil não teve mais grande relevância internacional. Ronaldinho Gaúcho foi um gênio, Kaká um craque, e esse foram os últimos brasileiros a disputar um prêmio de melhor jogador do Mundo. Há seis anos não temos ninguém entre os três primeiros, não temos nenhum grande craque em atividade – Neymar talvez, mas ainda muito cru. As duas últimas Copas do Mundo foram pífias, a de 2002 foi ganha pelos grandes craques como Rivaldo, Ronaldo, Roberto Carlos e Cafú ainda em grande fase, um R. Gaúcho que só crescia, mas não pela estrutura, investimento, planejamento, modernização.

Claro, ter craques é importante e ganhar só por causa deles não é demérito. Mas não podemos depender só disso, porque em uma fase de vacas magras, de transição, ficamos por baixo como tem acontecido.

Nos falta organização nos campeonatos, nos falta reunir mais os treinadores e jogadores para discutirem futebol, nos falta investimentos pesados e eficientes nas categorias de base, faltam CTs de alto nível, gramados e estádios decentes…Dinheiro não falta, o Brasil tem muitas empresas e bancos a serem “conquistados”,  só falta vergonha na cara e t-r-a-b-a-l-h-o por parte da CBF e das Federações, que devem trabalhar junto aos clubes.

O Mundial

Nosso exemplo mais recente e mais triste – sem contar a falta de jogadores brasileiros entre os melhores do Mundo e as duas tragédias de 2006 e 2010 – foi o Mundial de clubes.

O Santos é um dos melhores times do Brasil, de longe, um dos melhores da América do Sul, tranquilamente, além disso tem a maior promessa do futebol atual e outros vários bons e ótimos jogadores. Venceu a Libertadores e foi jogar o Mundial. Final contra o Barcelona.

Nosso ufanismo e cegueira com relação aos problemas do nosso futebol fizeram com que esperássemos o jogo do século. Claro que não seria, eu disse isso no último post e depois de 4 gols parece que acertei.

Tudo bem que o Barcelona esta dois patamares acima mesmo dos times extremamente ricos e organizados da Europa, e comparar-nos com eles é crueldade. Mas vimos, ainda assim, claramente um choque de realidade entre Brasil e Europa. Os brasileiros do Barça, com exceção de Daniel Alves, são todos (se não me engano) da categoria de base do time catalão, e não daqui do Brasil.

Se o Santos chegou lá, é justamente porque (agora) tem uma gestão de clube moderna, séria e eficaz aliada ao um trabalho de bases que já dura mais de dez anos. Foi isso que levou o Santos à Libertadores: o fato de o Santos ter craques criados na base e da diretoria tê-los mantido no clube junto a boas contratações.

Mas, ainda assim, o baile foi grande, gigante. Seria outro baile (menor, mais um baile) se jogássemos contra o Manchester. E se fosse o mesmo Barcelona mas contra outro brasileiro, baile também.

A dica para as federações brasileiras de futebol, para a CBF, para as diretorias de todos os clubes, para os diretores de categorias de base, para os técnicos e jogadores é a seguinte: abaixa a bola, desfaz o topete e vai trabalhar, precisamos recuperar o tempo perdido.

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