Jogador pizza!

A vida dos nossos rebentinhos jogadores de bola começa cedo hoje em dia. São três caminhos: 1) um olheiro descobre o menino jogando bola na rua, em um time amador ou nas famosas escolinhas e leva pra fazer testes 2) um empresário da grana pra várias famílias de meninos bons de bola, da chuteira e roupa de presente e leva os garotos pra fazer testes em algum clube 3) o menino vai por conta, ou levado pelo pai, pedir para fazer teste em algum clube.

O tal teste é a famosa peneirinha. Os meninos, que levam às últimas consequências o sonho de ser jogador de futebol, vão lá e jogam uma partida (às vezes nem metade de uma partida) em alguma posição tática aleatória – o único que vai pra posição que costuma jogar é o goleiro. Jogam enquanto os olheiros do clube observam, julgam e substituem os meninos ininterruptamente. As peneiras se sucedem, entre sucessos e fracassos, em um desgaste emocional gigante para os garotos. Quando ele é aprovado em consecutivamente em algum clube, até que sobram alguns pouquíssimos garotos, ele se junta a esse seleto grupo que é colocado na categoria de base correspondente à idade. São cerca de 200 meninos por divisão (fraldinha, juniores, sub-15, sub-17, sub-20, várias).

É claro que nem 10% dessa galera toda vai para o futebol profissional, mas, mesmo assim, em algum ponto dessa jornada o jogador passa a ter um empresário. Os empresários são: 1) caras com muita grana que apostam em muitos jogadores ao mesmo tempo, pagam todas as despesas da família pobre destes jogadores, arranjam testes para todos, isso tudo para que pelo menos um (ou dois, três no máximo) entre 30 (ou mais) dê certo. E quando um (ou dois, três no máximo) da certo, a conta desses anos todos, desses muitos meninos que o empresário investiu, está paga e o lucro incrível começa. Ou 2) o pai, irmão, tio, ou algum familiar/amigo do jogador que torna-se empresário do jovem jogador na hora em que isso torna-se imprescindível. Esse tipo de empresário acaba tendo também sua parte do jogador.

Parte? É…quando jogador começa a jogar na base, a divisão da pizza já começa. Isso porque as cestas básicas já viram um salário, o jogador passa a ter direitos de imagem – pelo fato de os campeonatos dos quais participa terem mais visibilidade e, como no caso da Copa São Paulo de Futebol Júnior, até passarem na TV – além do principal: no primeiro contrato já nasce a multa rescisória, o tal do ‘passe’ (o valor alguém tem que pagar para tirar o jogador do clube atual antes do fim do contrato).

Dos milhares de meninos que começaram essa carreira, só alguns vão para o time profissional. Estes e alguns outros – que não vão para o profissional mas continuam no clube – assinam um contrato profissional (em geral, os jogadores do sub-20 todos já tem um). Esse contrato prevê o salário, os direitos de imagem e a multa contratual. Esse contrato pode durar até cinco anos, quem quiser tirar o jogador do clube tem que pagar a multa e, se o clube liberar, negociar o salário com o jogador. Esse lance dos direitos de imagem está fazendo com que empresários se reúnam para pagar a multa de jogadores que estão na Europa, ajudar o clube com os salários e trazê-los para jogar no Brasil, lucrando milhões com os direitos de imagem (exemplos: Ronaldo, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho).

Mas não é simples assim. O empresário que investiu no jogador quando ele ainda era uma criança pobre tem uma parte do ‘passe’ e às vezes uma parte dos direitos de imagem. O empresário pode ser também uma empresa – a Traffic ou a DIS, por exemplo – que compram jogadores e colocam estes em clubes por ai, depois lucram com direitos de imagem e com uma eventual venda. O jogador tem uma parte do seu passe e uma parte dos direitos de imagem (e, claro, o salário, que é só dele), mas o atleta pode vender seu passe e seus direitos de imagem tanto para o clube quanto para o empresário/empresa – e com isso fazer dinheiro. Imaginem a quantidade de possibilidades de divisão da multa e dos direitos de imagem.

É aqui que cantam os especuladores e investidores do futebol, e é também aqui que vários clubes dançam. Isso porque os investidores/empresários dispendem pouco dinheiro e, depois, com direitos de imagem e passe (mesmo não tendo 100%) lucram valores absurdos. E o clube, que investiu muito em longos anos de treinamento, viagens de campeonatos, alimentação, academia, médico, assistente social, preparador físico, enfim…tem que dividir o valor da multa e direitos de imagem com os empresários/empresas.

Complicado, né? Pois é. E tem mais, como parte do salário é o direito de imagem – no caso de Neymar, 20% é salário real e 80% é direito de imagem – os empresários cacarejam no ouvido de seus jogadores para ele ir para tal clube e não para outro, porque o clube A tem mais torcida, vende mais camisa, tem mais propaganda, mais patrocinadores e o clube B não – mesmo o clube A e o B estando dispostos a pagar o mesmo valor pela multa rescisória. Ou até estes mesmos empresários azucrinam um jogador e soltam boatos na imprensa para levá-lo à Europa, para qualquer clube por menor que seja, para depois conseguir uma segunda venda, esta sim milionária (exemplo: empresários do Ganso querendo tirar ele do Brasil para depois vendê-lo por um valor parecido com o da transação Milan – Real Madrid pelo Kaká).

Os jogadores, desde a preparação da massa, da adição de ingredientes, passando pelo tempo no forno, viram cada ano mais e a cada contrato mais e mais uma bela pizza a ser dividida. E que pizza lucrativa!

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