Brasileiro prefere Chaves aos Jogos Olímpicos

blogs.estadao.com.br

Isso, isso, isso! O título é, claro, uma provocação, e não deve corresponder à realidade. Mas, a notícia de que na segunda-feira, às 18h30, o seriado Chaves, do SBT, ultrapassou com folga (para a fonte, clique aqui ) a da ginástica artística, exibida na Rede Record, chamou a atenção, e tornou necessária uma reflexão. Com o rugby entrando para as Olimpíadas em 2016, as atenções dos rugbiers com relação aos Jogos Olímpicos aumentaram. Ou deveria ter aumentado, já que é crucial entender as dimensões de uma esfera da qual nosso esporte fará parte. É sobre a repercussão dos Jogos Olímpicos de 2012 que este artigo tratará.

Até agora, Londres 2012 tem revelado que a relação do brasileiro com os Jogos Olímpicos ainda está longe de ser animadora para o futuro do esporte no país. Andando pelas ruas ou ouvindo o papo no trabalho, fica evidente que os Jogos não são um assunto quente. Parece existir certa frieza no ar com relação aos esportes olímpicos. Ou mesmo certa incompreensão de sua importância. Como os resultados do esporte brasileiro estão longe de serem empolgantes, o interesse do brasileiro pelos Jogos parece estar abaixo do que a magnitude do evento pede. Não que se deva assistir a um evento só porque alguém disse que ele é importante. Ninguém deve fazer isso. Para quem não gosta de assistir esportes, tratar as Olimpíadas com frieza é mais do que natural, o esporte não é unanimidade, e nem precisa ser. O que decepciona está  no fato de milhões de brasileiros já serem amantes de esporte. Mas, na maioria dos casos, apenas de um esporte: o futebol. E quando os boleiros têm a oportunidade de entrar em contato com modalidades diferentes, de apoiar a diversidade, de valorizar uma verdadeira cultura esportiva no país, a frieza toma conta. O noticiário esportivo permeia o dia-a-dia no país. Quem não gosta de esporte inclusive reclama que supostamente se gasta tempo demais com esporte no Brasil, seja nos jornais, na TV, no rádio ou nas conversas. E até pode ser verdade, sobretudo quando pegamos aquelas conversas intermináveis sobre futebol que versam sobre quase nada. Porém, só é verdade quando se trata de futebol. As Olimpíadas mostram – de forma relativa – uma realidade distinta para as demais modalidades.

Na primeira semana de Londres 2012, os índices de audiência das transmissões da Record na TV aberta foram decepcionantes. Que as audiências sejam baixas no horário de trabalho, é perfeitamente compreensível. Ainda que julho seja mês de férias escolares. Porém, é duro ver os Jogos Olímpicos perdendo em audiência para o seriado Chaves (seriado que todo mundo que gosta já assistiu um milhão de vezes cada episódio, mesmo os telespectadores mais jovens, que poderiam estar sendo estimulados pelas Olimpíadas a uma vida mais ativa). No domingo, quando muitos trabalhadores estão em casa, Londres 2012 perdeu para os programas da Eliana e do Faustão durante a partida da vitoriosa Seleção Brasileira Masculina de Vôlei (sobre a fonte, clique aqui ). Com todo o respeito a tais programas e a seus telespectadores, é bom lembrar que os Jogos Olímpicos acontecem apenas dequatro em quatro anos!

Para completar, existe um exercício sempre revelador que pode ser feito por qualquer um nos dias de trabalho. Na hora do almoço, observe quais programas estão passando nas televisões de bares, padarias e restaurantes. Espero que a região que frequento não seja um bom parâmetro, mas reparei que um grande número de estabelecimentos não tinham seus televisores ligados nos Jogos Olímpicos, com a Globo, que não detém os direitos de transmissão de Londres 2012 (e que não está dando grande cobertura ao evento), recebendo a preferência na maioria dos casos. Na segunda-feira passada, fui almoçar num restaurante por quilo bem na hora de uma partida da Seleção Brasileira Masculina de Basquete, cujas expectativas eram boas para os Jogos Olímpicos, estando recheada de atletas da NBA. A televisão do restaurante, no entanto, não estava ligada no jogo. E mais, ninguém que estava almoçando lá estava dando a mínima atenção para o programa que estava sendo exibido (que estava tratando de uma série de crimes muito “empolgantes”, discutidos sempre de forma muito “construtiva”). O conversor da TV a cabo me pareceu só um belo enfeite no restaurante. Pedi para que se colasse no jogo do Brasil, mas ninguém deu a menor atenção. O rapaz do caixa ainda me disse “ah, mas também, o Brasil não ganha nada nessas Olimpíadas, nem vale a pena”. Estávamos apenas no terceiro dia dos Jogos. Nos dias seguintes, preferi almoçar em outro estabelecimento, que tem o hábito de sempre deixar a TV em programas esportivos. Entretanto, a atenção dos clientes com relação aos Jogos não me pareceu muito intensa ao longo da semana. Muito pelo contrário. Em outro dia de jogo do basquete brasileiro, só o garçom estava entretido. E o que dizer dos notáveis feitos da Seleção Feminina de Handebol? Se estivéssemos em época de Copa do Mundo de Futebol, não tenho dúvidas que todos os estabelecimentos teriam suas televisões ligadas em todas as partidas do torneio, mesmo em jogos “sensacionais” como um Eslovênia x Argélia. E imagino que a atenção das pessoas seria maior. Mas, claro, é só um palpite meu. Talvez enviesado pela frustração em saber que Chaves teve audiência maior (com todo o respeito ao programa humorístico mexicano, que fez parte da minha infância).

O fato da Rede Globo não ter os direitos de transmissão de Londres 2012 explica parcialmente as audiências menores. Não vou dizer que estes Jogos Olímpicos foram um fracasso, afinal a Record registrou várias audiências muito expressivas, liderando o IBOPE em vários momentos (para mais, clique aqui ). O fato da emissora não ser grande em vários estados brasileiros explica também o insucesso de algumas transmissões. A quantidade de horas de eventos que cada dia dos Jogos tem também é imensa, indo das 4h00 às 20h00. Ninguém assiste esporte o dia todo, é natural que outros programas tenham grandes audiências em alguns momentos (e seria bom que programas que fomentassem a cultura e a discussão, mas não é o que ocorre). Tais fatores não invalidam por completo as críticas aqui feitas à atenção geral que os Jogos Olímpicos vem ganhando. Existe ainda uma clara frieza ou indiferença pelas nossas bandas com relação aos Jogos Olímpicos. Ou melhor, com relação aos “outros esportes”. Mesmo com todo mundo sabendo que seremos sede da próxima edição dos Jogos. Sermos meros coadjuvantes no cenário esportivo mundial é apenas uma consequência.

Com isso, um questionamento é importante: já é viável transmissão em TV aberta de um esporte que não seja o futebol? Ou melhor, de um esporte no qual o Brasil não venha dominando o cenário mundial? Recentemente, a Globo exibiu ao vivo a final da NBB, e a audiência foi péssima (para a fonte, clique aqui ). A gigante da mídia brasileira arriscou dar espaço ao basquete, e perdeu. Tanto que nenhuma das emissoras que detêm os direitos de transmissões dos jogos de futebol (Campeonato Brasileiro ou Sul-Americana) pressionou para que tais competições fossem interrompidas durantes Londres 2012. Mas, sendo justo, em outros países o futebol também está rolando. Com a diferença que a Europa está apenas no início de sua temporada 2012-13. No caso de esportes que não são olímpicos, como o rugby XV ou os esportes norte-americanos, a não interrupção do calendário é mais do que esperada. Não sei como anda o interesse em outros países pelas Olimpíadas. Mas, não importa. Meu interesse aqui é no Brasil, país tão deficiente em políticas esportivas e tão monopolizado por uma só modalidade. É este país que será sede em 2016 do maior festival de esportes do planeta.

O quadro de medalhas não pode ser tido como parâmetro do desenvolvimento esportivo de um país, uma vez que ele privilegia provas individuais. É irreal um esporte individual dar  10 ou 20 vezes mais medalhas que uma modalidade coletiva. Isso não revela em nada o nível de apoio ou de desenvolvimento esportivo de um país. A China, por exemplo, ganha muitas medalhas porque investe estrategicamente (politicamente) em modalidades que dão muitas medalhas. Não é por acaso que eles são fracos na maioria dos esportes coletivos. A Argentina, por outro lado, que é forte em muitos esportes coletivos (inclusive não olímpicos), ganha pouquíssimas medalhas. Porém, no caso do Brasil, é inegável que ainda estamos muito abaixo do que poderíamos, e ainda dependemos muito ou da genialidade de alguns indivíduos ou do bolsa-atleta e de outros incentivos federais, que são ações de cunho político, não contemplando todos os problemas estruturais ou a cultura esportiva dominante.

O que tudo isso tem a ver como rugby? O rugbier é um esportista que contribui para a formação de uma cultura esportiva plural no Brasil. Muitos devotos do rugby apreciam outros esportes, e estão acompanhando os Jogos Olímpicos. O futebol também segue compreensivelmente dentro das preferências esportivas dos rugbiers brasileiros, o que mostra uma faceta positiva: o futebolista pode apoiar também outro(s) esporte(s), podendo ser de fato um esportista eclético, um apoiador do Esporte (com maiúscula) e seus benefícios.

 rugbiers, no entanto, que apreciam somente o rugby, e nada mais. Nesse caso, eles tomam o mesmo caminho do torcedor de futebol. O que não é condenável, afinal são opções pessoais, gostos pessoais. Ninguém precisa apoiar mais de um esporte. Mas, quem quer trabalhar em prol da disseminação de uma modalidade esportiva pouco difundida tem que pensar de forma mais ampla. Achar que seu esporte é superior aos demais e que por isso merece crescer, muita gente acha. O que, obviamente, não é uma verdade.

Quando se vive num país monopolizado por uma única modalidade esportiva (ao menos em termos de espaço da mídia, o que significa também apoio financeiro), as demais modalidades precisam entender que só terão um terreno propício à sua disseminação quando houver uma mudança na estrutura da cultura esportiva nacional. Isto é, caso o país passe a dar valor à pluralidade esportiva. Caso contrário, o sucesso pode ser efêmero. O tênis teve seu momento máximo com Guga e Meligeni (antes, com Maria Ester Bueno), e caiu, ainda que continue tendo um espaço marcante na imprensa esportiva. O basquete já foi bicampeão mundial masculino, e a seleção feminina teve campanhas brilhantes em Olimpíadas. E declinou. E a ginástica? É difícil não achar que em breve não começará a entrar na curva descendente. No caso do vôlei, o currículo alcançando é mais sólido que o dos demais esportes, e foi obtido recentemente. Da mesma forma que o basquete foi por décadas o segundo esporte reinante (basta perguntar para qualquer senhor de idade:”bola ao cesto” foi o “sempre” o esporte mais popular), o vôlei deverá permanecer em alta por um bom tempo, mas a solidez das estruturas que ele está criando só serão provadas a médio prazo, caso os sucessos diminuam.

Para o rugby crescer, é necessário que o ambiente seja propício. O terreno apropriado para o crescimento de uma modalidade é o terreno onde diversos outros esportes também prosperam, pois espaço num país de 200 milhões de habitantes evidentemente não falta. Só depois que esse terreno for bem fundado vale apena pensar no crescimento de uma modalidade em competição com as demais. Sem o terreno, só prospera quem consegue se tornar uma máquina de vitórias, um fenômeno esportivo que não necessariamente garante o futuro.

Texto de Victor Sá Ramalho, historiador e co-fundador do Portal do Rugby,
maior portal do esporte no Brasil. 

Anúncios

2 responses to “Brasileiro prefere Chaves aos Jogos Olímpicos

  1. O Brasil não merece o maior festival de esportes do planeta. Eu mesmo já fui muito entusiasta da olimpíadas, mas confesso que hoje dei uma parada, tenho uma certa raiva do país que não investe em várias modalidades esportivas e mais raiva de gente que culpam esses atletas, Sem uma cultura esportiva é difícil. A cada atleta que consegue um bom resultado vibro, e digo, essa medalha não é do Brasil, e sim da menina ou do menino que venceu as vezes com apoio de familiares e do dinheiro do seu próprio bolso pra competir.

    • É exatamente isso!
      Muito bom. Obrigado pelo comentário. O raciocínio é exatamente esse. Logo vamos escrever um post dando algumas alternativas pra mudar isso.
      Tomara que você volte e confira.

      Abraço!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s