O brasileiro pode, sim, aprender a gostar de esporte!

– Porra!!! Grosso!!! Vai estudar – grita um votuporanguense na arquibancada de um jogo da segunda divisão (na prática a quarta) do campeonato paulista depois do lateral do Clube Atlético Votuporanguense errar um cruzamento. Eis que um outro retruca:
– Aqui é segundona…não é Barcelona, não!

O primeiro dos dois é a voz da grande maioria dos brasileiros, o segundo é como gostaríamos que o brasileiro pensasse. O primeiro não gosta de esporte, não entende o que é um esporte, ele gosta de ver vitória para seu ego ser massageado. E só! O segundo sabe o que está assistindo, sabe adaptar suas expectativas e assistir a uma partida de futebol por apreço à prática esportiva. E por que nós, brasileiros, deveríamos ser como o segundo? Que diferença faz? Faz toda…

Há entre nós um problema crônico com relação aos esportes, principalmente com modalidades que não o futebol. Víamos tênis, na época de Guga e Meligeni. Víamos boxe, no ápice de Popó. A Fórmula 1 seguiu com audiência, por outros motivos, mas ainda assim gostávamos muito mais quando Senna era vivo, ou quando Piquet ou Fittipaldi corriam. O basquete já teve sua audiência, que só voltará se tivermos novos ídolos. E a paciência com o futebol está acabando, a Seleção da CBF já está irritando o exigente torcedor brasileiro. Isso porque, em geral, não gostamos de esporte, não apreciamos a prática esportiva e a competição. Gostamos, isso sim, de ver o Brasil ganhando. É flagrante a audiência crescente do UFC com os nossos Vingadores nocauteando os gringos. Mas ai deles se começarem a perder. É assim que funciona.

Há uma explicação possível. Não espero que ela seja exata, mas é válida: o Brasil tem os impostos entre os mais caros do Mundo e o retorno é quase nulo, a corrupção corrói o país e desanima os cidadãos – que passam a achar normal sonegar impostos e subornar policiais. A saúde é terrível, a educação está sucateada, abandonada, pagamos impostos e também pedágios caros para andar em estradas que não são lá essas coisas, nossos professores ganham mal e a polícia é corrupta e violenta. Qual motivo de orgulho o brasileiro tem para se apegar? A simpatia? Talvez o samba…o Carnaval, então? Machado de Assis é nosso Shakespeare? Mas a maioria de nós nem sabe quem ele é. O brasileiro deposita seu orgulho e esperança nos esportes. Deposita na Seleção de futebol, como depositou na Fórmula 1, no Tênis, no Boxe e, agora, no UFC. Quando assistimos a uma competição, sentamos para ver nosso ego brasileiro sendo massageado, não para curtir o esporte. Atletas – humanos passíveis de erro – têm depositada neles toda esperança de um país, que quer mostrar algum valor. Qualquer derrota é uma grande frustração.

Antes de aceitar outras modalidades esportivas, antes do futebol masculino deixar de ser a única competição esportiva que respeitamos, precisamos aprender a perder e, com isso, aprender a gostar de esporte. O brasileiro não sabe perder porque só assiste futebol: o time que escolheu tem que ganhar sempre para ele não ouvir piadas no dia seguinte, o time que escolheu é sua paixão e um pedaço dele mesmo, o sucesso do time é um sucesso dele. E com jogos da Seleção a lógica é a mesma, como eu falei mais acima. Claro, o brasileiro gosta, em geral, do futebol arte, o famigerado (e falso) “futebol à brasileira”, mas isso é só mais uma nuance da massagem ao ego, do único orgulho de um país cheio de problemas. Tanto não sabemos assistir esporte pelo esporte que um piloto tão bom (sim, ele é ótimo) quanto Rubinho, vira piada. Das mais repetidas, alias. Em países que gostam de esporte ele seria um ídolo.

Algo pode resolver esse nosso problema. E a saída só pode ser pelo futebol. Qual outro esporte poderia resolver isso senão o queridinho do Brasil? Eu explico: o brasileiro, acho eu, precisa aprender a ver uma partida de futebol apenas pela partida. Torcendo, mas sabendo adaptar suas expectativas – como o cara do começo do texto. E tem algo que cumpriria essa função muito bem e ainda aumentaria gigantescamente a prática de futebol e a guinada de novos craques para o Brasil. O futebol em cidades pequenas e de bairro nas grandes cidades!

O calendário atual deixa os clubes pequenos sem ter o que disputar na maior parte do ano, muitos deles chegam perto da falência todo ano. Quando acabam os estaduais, os bons jogadores saem para os times grandes ou para times de divisões acima. Os calendários, concluímos, são feitos para favorecer e enriquecer empresários: ou o jogador vai de um time pequeno para um maior ou vai de um dos grandes para a Europa. O nosso calendário, tudo indica, foi feito para isso. E, óbvio, precisa ser mudado. O número de competições para os pequenos tem que aumentar, assim como a verba para os participantes e os prêmios.  Esporte é feito de treino e de competições, portanto precisamos colocar os clubes de futebol para jogar.

As quase 1.200 rádios do Brasil mal sabem o que fazer com as suas 24 horas de programação. Poderiam muito bem, então, transmitir mais partidas de futebol dos menores, dos times de pequenas cidades e dos times de bairro nas metrópoles. Assim como as televisões: Rede Vida, TV Brasil, Gazeta, Rede TV, por que não? Os jornais devem cobrir as competições e a internet é a ferramenta perfeita para espalhar tudo isso. Essa divulgação pode acontecer com os incentivos certos.

Com o calendário arrumado, cobertura da imprensa e incentivos governamentais – e privados, pois não! – esse futebol dos pequenos tende a se consolidar e mais clubes vão aparecer. E ai que chegamos à melhor parte: o brasileiro vai torcer por um time grande e também para o time da sua cidade/do seu bairro. O sujeito em Cosmorama pode torcer pelo Cosmoramense e para o Corinthians. O outro pode torcer pelo Praia de Iracema Futebol Clube e também para o Fortaleza. Outro pode torcer pelo Tatuapé F.C. e também para o São Paulo. Isso só traria benefícios para nós, torcedores brasileiros. Primeiro porque mais atletas seriam revelados, mas isso é outra história. Segundo, e mais importante, porque aprenderíamos a perder e a ver o esporte apenas pela prática esportiva. Poderiam me perguntar: mas isso não vai seguir a mesma lógica? O torcedor não vai continuar vendo seu time apenas se ele estiver ganhando?

Acho que não, eu respondo. Porque o torcedor verá o time do seu bairro no Domingo de manhã, com um futebol limitado, que talvez perca, mas verá o futebol da série A depois do almoço. Quanto mais próximo o esporte estiver de seu público – como seria nesse cenário que eu propus – mais o torcedor vai se envolver pela competição e prática esportiva. Isso só pode ser benéfico. E esse seria só o primeiro passo. O próximo seria disseminar os esportes, a começar pelas escolas, mas também fora delas. Desde criança, o brasileiro deve praticar quanto mais modalidades forem possíveis, se familiarizar com as regras e emoções de cada esporte. Handball, Basquete, Vôlei, Atletismo, Natação, Tênis, Boxe, Rugby…

O futebol local é interessante não só para ele mesmo e para a CBF. Quanto mais as cidades pequenas e bairros tiverem seus times disputando vários campeonatos com chance de ganhar, quanto mais isso for divulgado, quanto mais isso for valorizado, mais o torcedor vai se aproximar do esporte. As rádios e pequenas televisões devem cobrir, os jornais e internet também. O ingresso deve ser o mais barato possível, de preferência gratuito. A diversão do brasileiro não pode ser apenas beber, como ainda é, mudando apenas o lugar onde se bebe. O brasileiro deve poder se divertir – sozinho, entre amigos ou com a família – assistindo algum esporte. Isso tem mais chance de dar certo se começar com o futebol. Quando tivermos o time local e o time grande para torcer, vamos nos acostumar com os erros, com as derrotas, também com vitórias emocionantes e empates sem sal. Aprenderemos o que é esporte. Aí sim o terreno será fértil para modalidades diversas tornarem-se populares no Brasil, que só assim poderá ter três ou quatro grandes esportes – como nos EUA e Inglaterra, por exemplo – e ser competitivo em vários outros.

Bruno Jeuken é um quase mais ou menos historiador, faz parte do projeto Brasil na Arquibancada do NAP-Ludens e escreveu esse texto para o Portal do Rugby.

Anúncios

2 responses to “O brasileiro pode, sim, aprender a gostar de esporte!

    • hahahaha fica complicadíssimo!
      fazem o futebol pensando no dinheiro e não no esporte, ai não tem jeito. mal sabem eles que a longo prazo eles mesmos ganhariam mais dinheiro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s