Futebol: esporte coletivo.

Contratando nomes a peso de ouro: os heróis

Nós elegemos o melhor jogador da partida, o melhor jogador do Mundo de cada ano, elegemos o craque de todos os tempos, comparamos Pelé e Messi. Nossos clubes contratam nomes, estrelas que parecem ser o único jogador de todo um elenco.

Nós personalizamos o futebol sempre que podemos, o máximo que podemos. Essa personalização é importante para patrocinadores e para o clube, ela constrói heróis. Heróis vendem mais camisas, mais tênis, mais barbeadores, shampoos e carros. O clube ganha dinheiro, o jogador herói ganha dinheiro e as empresas ganham dinheiro.

Calma!!! O craque do seu time, a estrela que seu clube acaba de repatriar, o camisa 10 que você ama no video-game, nenhum deles é uma construção do capitalismo. Não é isso. Não estou dizendo que tudo é uma conspiração. Sua vida não é uma ilusão!

Só digo que essa personalização é interessante para os patrocinadores, para as agências de propaganda e seus clientes, enfim. Mas essa tal personalização é culpa nossa. Desde sempre – talvez para sempre – personificamos sentimentos e virtudes, construímos heróis -mitológicos ou reais -, idealizamos figuras do passado e do presente. Nós precisamos de uma referência, de uma inspiração, uma esperança, um modelo, precisamos de um herói que nos represente e proteja. Seja um dos pais, o Hércules, o Homem-Aranha, o avô, um irmão ou irmã mais velha, o Ayrton Senna ou o Kurt Cobain.

É normal! Nós fazemos isso.

Mas esse processo todo, por mais natural que seja, tem consequências problemáticas no futebol. É uma relação dialética, não da pra saber qual é a causa e qual é a consequência:
as diretorias gastam dinheiro com jogadores-estrela porque a torcida gosta desses jogadores, sente que algo está sendo feito; ou a torcida gosta desses jogadores-estrela porque a diretoria os contrata com pretensões imediatistas?

Por isso a dialética: os dois são causa e consequência um do outro ao mesmo tempo. O Santos e o Flamengo querem gastar rios (rios!) de dinheiro para repatriar Robinho. O mesmo Flamengo passou vergonha quando trouxe Ronaldinho Gaúcho. O Palmeiras gastou muita grana com Valdívia, antes dele com Kléber. Enfim…

O que adiantou ao Palmeiras ter Valdívia? Caríssimo, o chileno saiu rebaixado do Brasileirão sem ter feito sequer um gol. De tão caro, nem o salário de Ronaldinho Gaúcho o Flamengo conseguia pagar (se bem que o Flamengo…). Em campo ele deu pouquíssimo retorno. O mesmo vale para Thiago Neves. O Santos tem problemas por não ter um elenco, não ter peças de reposição, e quer ainda trazer Robinho, que significa gastar dinheiro com uma multa alta e pagar um salário de 1,7 milhão de reais (1,1 milhão livre de impostos nas mãos do jogador). Robinho não resolveria o problema do Santos. Ele seria apenas um herói.

E nós nos frustramos muito facilmente com nossos heróis. Na primeira demonstração de humanidade, de fraqueza e imperfeição, o herói cai do pedestal. É caro e arriscado investir em nomes. O ideal é investir em pessoas, em seres humanos.

11 de cada lado, um jogo coletivo

O que há em comum entre o São Paulo tricampeão de Muricy e o Corinthians multicampeão de Tite? Qual a diferença entre o Barcelona e o Real Madrid dos galáticos?

O São Paulo tricampeão não tinha nenhum craque. Eles tinham um time, um elenco de pessoas, seres humanos, mais ou menos do mesmo nível. Homogêneo da zaga ao ataque, o único craque e estrela era Rogério Ceni – ainda assim, um jogador formado no clube. O tricolor mais vendeu jogadores ao longo de três anos do que contratou, o time se renovava organicamente. Vantagem em campo: eles jogavam coletivamente.

O Corinthians campeão do Brasileirão 2011, da Libertadores e do Mundial 2012, comandado pelo competentíssimo Tite, não tem estrelas. Não tem sequer uma estrela. O clube tem um time homogêneo, parelho, com pouca distinção entre reservas e titulares. Todo mundo deve mostrar que merece um lugar no time o tempo todo. Há uma competição saudável entre os jogadores, em campo eles se ajudam e funcionam como um grupo. As vantagens são muitas. Eles jogam coletivamente.

O Barcelona ultra-mega-multi-campeoníssimo é cheio de estrelas, heróis, quase todas as posições tem algum grande nome do futebol mundial. Mas isso só acontece porque o Barcelona forma as grandes estrelas do futebol mundial. O clube tem esses caras porque conseguiu formá-los na sua categoria de base. Por isso, a lógica é a mesma: não contrataram nenhuma grande estrela caríssima. O Barcelona tem um time, um elenco, um grupo. Contratam pontualmente, geralmente jogadores ainda sem grande nome internacional. Quando o fazem, ou seja, quando contratam uma estrela caríssima, caso Ibrahimovic, não da certo. Eles montam um time, não um amontoado de jogadores com uma ou duas estrelas caríssimas. Eles jogam coletivamente.

O Real Madrid dos Galáticos durou, mais ou menos, entre a contratação de Figo em 2000 e a saída de Beckham em 2007. Foram 8 anos de um time caríssimo, muito caro, caro mesmo, monstruosamente caro. Só contrataram estrelas universais, jogadores de passe multimilionário, salários astronômicos e apelo comercial. Uma colcha de retalhos, uma colagem de  individualismos. Ganharam 8 títulos em 8 anos, vendendo muita camisa mas sem encantar dentro de campo. O Barcelona da coletividade, dos jogadores formados em casa, das contratações pontuais, ganhou 14 títulos em 4 anos. Metade do tempo, quase o dobro de títulos.

O futebol é um esporte coletivo

O Santos tinha um time em 2010 e 2011. Jogava bonito, encantava, teve 7 jogadores revelados nas categorias de base (“modelo Barcelona”: Ganso, Neymar, Alex Sandro, Wesley, Adriano, André, Rafael) com algumas boas contratações pontuais (Dracena, Durval, Elano, depois Borges). Por isso Robinho deu certo nos 6 primeiros meses de 2010. Por isso o Santos foi campeão da Libertadores. Em 2012, o Santos tinha Neymar…e só! Sem o 11, teve exibições terríveis, aproveitamento de time rebaixado. Mesmo com Neymar, sendo ele a única referência de um esporte que é essencialmente coletivo, o Santos foi mal. O Palmeiras tinha Marcos Assunção e Barcos, não tinha um time. Foi rebaixado. O Fluminense tem Deco, Fred, estrelas caríssimas, mas tem dinheiro da Unimed que segura as finanças. De resto, o time é montado no “modelo Corinthians”, com contratações de nomes poucos badalados mas eficientes quando montados coletivamente: Gum, Cavalieri (estava em baixa quando contratado), Leandro Euzébio, Carlinhos, Wellington Nem.

Gastar todo tempo e grana com um par de estrelas só faz seu clube gastar mais dinheiro e todo mundo querer escolhê-lo no video-game. Repetindo: em 8 anos os galáticos do Real Madrid ganharam 8 títulos; em 4 anos o time feito em casa do Barcelona ganhou 14. Há duas formas de montar um time, um grupo: sabendo contratar e/ou investindo nas categorias de base.

A segunda opção é a melhor, mais duradoura, mais estável, mais barata, mais sólida. A primeira exige cuidado, conhecimento, bons profissionais como olheiros e um bom treinador. Mas as duas podem funcionar:

Modelos de renovação orgânica

O Corinthians é o melhor exemplo brasileiro de um time montado pelas contratações. Acertaram nas contratações, fizeram e fazem de tudo para não vender os jogadores, mantiveram e mantêm os que dão certo, contratam peças de reposição antes que elas sejam necessárias.

Emerson foi contratado no começo de 2011, deu certo. Paulinho e Ralf foram contratados a preço de banana (agora valem milhões), deram muito certo. Alessandro foi contratado para a série B, esta ai até hoje. Guerrero foi contratado depois da Libertadores e fez os dois gols do título Mundial. Emerson tem 34 anos, logo vai parar, mas o Corinthians já tem Martinez, mais novo e futuro substituto. Paulinho esta novo ainda, mas é daqueles que são difíceis de segurar, logo pagarão a multa e ele irá inevitavelmente para a Europa. Mas o Corinthians tem Guilherme, que veio da portuguesa para ser o substituto de Paulinho num futuro próximo.

A regra é simples: não desmanche o time (sai caro remontá-lo e não vai funcionar), monte seu elenco aos poucos e procure peças de reposição antes mesmo de precisar.

O segundo exemplo é famoso e clássico: o Barcelona. Desde o começo da década de noventa eles investem pesado nas categorias de base. Os blaugranas pensaram e pensam o jogo de seus meninos de forma ofensiva e baseada na posse de bola. Os garotos jogam juntos por uns 10 anos antes de subirem para o profissional. Iniesta, Xavi, Messi, Fábregas, Piqué, Puyol, são craques mundiais, grandes estrelas, mas o Barcelona não precisou contratar nenhum deles. São formados no clube e jogam juntos faz tempo, e parecem que continuarão jogando juntos por muito mais.

A regra é simples: invista na base, daqui uns 15 anos haverá um time inteiro jogando com entrosamento e qualidade, sem ter que contratar quase ninguém. Quando esse time envelhecer ou se desmontar, outros tantos estarão nas categorais de base vibrando de tanta vontade de jogar.

****

Não é um problema ter heróis, os torcedores inevitavelmente escolherão os seus. O problema é planejar o elenco de um clube de forma imediatista, depositando todo o dinheiro e esperança em um ou dois nomes caros e famosos. Contratar Robinho, pagar seu salário, e não renovar a zaga, as laterais, montar um banco de reservas, não adianta nada ao Santos. Contratar Valdívia não serviu de nada ao Palmeiras. Nada!

Os clubes, especialmente os brasileiros, precisam aprender algo que o Corinthians já aprendeu: o futebol é um esporte coletivo, portanto o planejamento do elenco deve passar por todas as posições, montando um time homogêneo. Não é um problema ter estrelas, o problema é montar um time a partir delas. Os clubes, caso contratem, devem contratar pessoas, não nomes. Paulinho era apenas mais um jogador, o desempenho dele e do time é que o transformaram em uma estrela. Neymar era apenas um jogador, o desempenho dele e do time é que o transformaram em uma estrela (o problema foi quando o Santos teve que contratar, ai erraram e a estrela ficou solitária).

***

O Flamengo não era só Zico, o Santos não era só Pelé, Palmeiras não era só Ademir, o Barcelona não é só Messi, por ai vai. Esses caras despontaram, viraram ícones, mas por trás deles havia um time.

Nossa personalização do futebol faz torcida e diretoria esquecerem que existem 11 jogadores mais os reservas. Nossa personalização, culpa da nossa vontade incontrolável de construir heróis, causa no futebol um gasto de dinheiro imenso, forma equipes Frankenstein, leva a erros graves de planejamento.

Isso deve mudar enquanto é tempo, para voltarmos a montar equipes, não uma lista de nomes com uma estrela ao lado de um deles.

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One response to “Futebol: esporte coletivo.

  1. OLÁ AMIGOS DA TV GAZETA……
    O time do Santos continua sem esquema tático,jogada ensaiada…..É na base do individualismo de alguns jogadores……Não dá mais p/ver Muricy Ramalho sentado no banco de reservas com a mão no bolso e masclando chiletes !!!!!!!….. Voces lembram no final do mundial…???
    Pois é o Santos perdia p/ o …Barcelona de 4 x 0 e o Sr Muricy Ramalho sentado masclando chicletes com a mãos no bolso…..O.B.S…. É um dos treinadores mas caros da Brasil….!!!! fora Muricy Ramalho…. A quanto tempo ele é treinador do Santos…???? Não teve tempo p/ deffinir um esquema tático e jogadas ensaiadas….???? Fala Sério….”””

    SE VC CONCORDA COM O COMENTÁRIO COMPARTILHEM POR FAVOR…!!!

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