Por um novo calendário

Comemorando o nosso aniversário de 3 anos, postamos um artigo de Victor Sá Ramalho (co-fundador, repórter e colunista do Porta do Rugby) sobre o calendário do futebol brasileiro. Excelente artigo, vale a leitura:

“Enquanto os estaduais forem tão longos e desinteressantes, cada vez mais teremos jovens torcedores do Barcelona no Brasil. Essa ideia defendida pelo jornalista Paulo Vinicius Coelho é realista. Os públicos nas competições estaduais são um genuíno fracasso: 5.701 até agora no Paulista, 5.102 em Mineiro, 2.725 no Carioca e 1.845 no Rio Grande do Sul, de acordo com o Lance! E não dá para alegar que os públicos televisivos compensam.  A Globo vem registrando quedas a cada ano nas audiências, e mesmo os clássicos nos estaduais perderam quase metade dos pontos do IBOPE ao longo da última década, ao passo que cada vez mais quem ganha espaço como espetáculo televisivo são os campeonatos estrangeiros.

Por mais que o futebol brasileiro venha repatriando seus bons jogadores, revertendo o fluxo histórico de atletas de nossos clubes para o exterior, o calendário de competições inflado e pouco dinâmico joga contra o interesse dos torcedores, saturados pelo excesso de partidas banais. A situação piora para os clubes que após os estaduais não têm a disputa das duas primeiras divisões do Campeonato Brasileiro. Para os clubes que não estão entre os 40 melhores do país, a perspectiva anual inexiste – seja para o planejamento do clube contemplando 12 meses, seja para o torcedor. Mesmo a curta Série C e a comprimida Série D não satisfazem as necessidades, sendo insuficientes para um clube trabalhar bem em longo prazo e para sustentar uma torcida perene. Por outro lado, o calendário sobrelotado à qual se submetem os grandes clubes faz com que as equipes sigam realizando partidas em datas destinadas à seleção brasileira – o que tende a ser cada vez mais grave, dado o movimento de retorno de importantes atletas ao Brasil – e não tenham mais datas disponíveis para realizarem partidas contra times estrangeiros com o objetivo de promoverem suas marcas.

O maior problema da atual estrutura do futebol brasileiro é a sua principal particularidade: o federalismo levado à risca. É da acomodação entre os interesses estaduais – e de sua confusão com os interesses particularidades dos dirigentes de federações – e os nacionais que se produzem campeonatos esvaziados de sentido e interesse público, além de um calendário desigual (insustentável economicamente para uns, sobrecarregado para outros), desproporcional.

Assim, urge criar um calendário nacional unificado que abranja diretamente todas as agremiações profissionais do país, mantendo uma racionalidade geográfica e em torno da qual orbitem as competições estaduais. Entretanto, o futebol brasileiro não pode simplesmente jogar fora a estrutura que formou a sua própria identidade e que serve de referencial para as autorrepresentações de clubes e torcedores. Nesse sentido, adotar cegamente os modelos das competições europeias é a negação de elementos formativos do futebol brasileiro, como a criação paralela de diversos clubes autorrepresentados e referenciados como “grandes” em diversos centros diferentes. Na realidade, o futebol brasileiro operou uma primeira e parcial destruição de uma modalidade de competições: os torneios regionais (também formadores de identidades clubísticas), cuja última remanescente é a Copa do Nordeste.

Com o objetivo de propor um modelo reformador, busquei conciliar as competições nacionais com as estaduais e as regionais, dentro de um calendário com menos datas e que permita um planejamento maior de competições internacionais.

Nacionais

Série A

20 times

38 rodadas

4 rebaixados / 4 vagas na Copa Libertadores e 3 vagas na Copa Sul-Americana

De fevereiro a novembro*

Série B

20 times

38 rodadas + 2 de mata-mata

4 promovidos (3 primeiros + vencedor do mata-mata entre os times de 4º a 7º lugares) e 4 rebaixados

De fevereiro a novembro*

Série C

40 times (2 grupos com 20 times)

38 rodadas + 2 de mata-mata

4 promovidos (1 de cada grupo, que fazem a final, e 2 via mata-mata entre os times de 2º a 5º lugares de cada grupo) e 8 rebaixados (4 por grupo)

De fevereiro a novembro*

Série D

27 grupos estadualizados

De 24 a 30 jogos por time na 1ª fase + 10 de mata-mata

8 promovidos –5 estados com 1 vaga direta – demais 11 vagas a serem decididas em confrontos entre os campeões dos outros 22 estados

De fevereiro a novembro*

Copa do Brasil

27 times (campeões estaduais)

10 rodadas (jogos de ida e volta)

Campeão: Libertadores

Segundo semestre

Regionais

Torneio Rio-São Paulo (RJ, SP)

30 times (15 de SP e 15 do RJ)

10 rodadas

Campeão: Sul-Americana

Segundo semestre

Copa do Nordeste (BA, SE, AL, PE, PB, RN, CE, PI, MA)

27 times (3 de cada estado)

10 rodadas

Campeão: Sul-Americana

Segundo semestre

Copa Norte (TO, RO, AC, AM, RR, AP, PA)

21 times (3 de cada estado)

10 rodadas

Campeão: Sul-Americana

Segundo semestre

Copa Centro-Minas (MG, ES, DF, GO, MS, MT)

18 times (3 de cada estado)

10 rodadas

Campeão: Sul-Americana

Segundo semestre

Copa Sul (RS, SC, PR)

21 times (7 de cada estado)

10 rodadas

Campeão: Sul-Americana

Segundo semestre

Estaduais

27 estados

Formato de copa, com no máximo 10 rodadas – campeões classificados à Copa do Brasil, e outros às copas regionais – 5 estados garantidos nas oitavas-de-final, e os demais 22 jogam a preliminar

Primeiro semestre

Brasileiro de Seleções

27 estados

Mata-mata entre as seleções estaduais (pelo título e contra o rebaixamento) – 3 jogos – com sede única, aberta a candidaturas

1ª Divisão: SP, RJ, MG, RS, PR, SC, BA e PE (1 rebaixado)

2ª Divisão: GO, DF, AL, PB, RN, CE, PA e MT (1 promovido e 2 rebaixados)

3ª Divisão A: AM, AP, RO, AC, RR e Brasil Sub-19

3ª Divisão B: MS, ES, SE, MA, PI e TO

Período do Mundial de Clubes

Total: 58/60 jogos no calendário nacional/estadual por clube

O sistema de competições sugerido merece ainda algumas explanações.

Período: o período de disputas escolhido para as competições respeita o atual calendário brasileiro, que estabelece as férias dos atletas para a virada do ano. Caso se opte por um calendário que estipule férias no meio do ano, como o europeu, a inversão dos períodos deverá ser feita;

Série A: O principal problema identificado na Série A é o excesso de vagas em disputa para a Copa Sul-Americana, que tornam pouco interessantes as disputas nas posições intermediárias da tabela de classificação. Com a destinação de 5 das 8 vagas brasileiras na Copa Sul-Americanas aos torneios regionais, cujas finais seriam disputadas somente no fim da temporada, as disputas tendem a se tornarem mais intensas por apenas 3 vagas na competição.

Série B: O principal problema identificado na Série B é a ausência de disputas nas posições intermediária da tabela de classificação. Tomando por exemplo as segundas divisões de Inglaterra, Itália e Espanha, a introdução de uma mata-mata final para a definição da última vaga de promoção à Série A produz maior interesse na competição para mais equipes na reta final da temporada. Por se tratar de apenas uma das quatro vagas em disputa, pela meritocracia é mantida para os três melhores do campeonato. Com o intuito de não aumentar ainda mais o número de jogos, os duelos do mata-mata seriam decididos em partidas únicas, na casa da equipe de melhor campanha na temporada regular, permitindo o fácil encaixe das partidas no calendário da Série B, que tradicionalmente se encerra antes da Série A.

Série C: Abaixo da Série B, a principal questão a se atentar para a realização de campeonatos nacionais são as distâncias, que necessitam ser reduzidas para não onerar demais a competição para seus participantes, que já tem verbas curtas e baixos públicos em geral. Para aumentar o interesse do público, é necessário priorizar partidas que alimentem rivalidades regionais. Conforme mais distantes estão as equipes, menos interesse existe por uma partida nessa divisão. Atualmente, a Série C já se divide entre Grupo Norte e Grupo Sul, sendo que a região Centro-Oeste se divide entre as duas zonas. A necessidade se torna aumentar o número de jogos por divisão, igualando-a ao número de jogos das séries A e B. Os campeões de cada grupo já garantem vaga na Série B e se enfrentam em dois jogos na final. Já os times do 2º ao 5º lugares em cada grupo se enfrentam pela promoção, em jogos únicos, sempre na casa do time de melhor classificação na temporada regular. Assim, um mata-mata contaria com o 2º e o 4º do Grupo Norte e o 3º e o 5º do Grupo Sul, e o outro teria o 2º e o 4º do Grupo Sul e o 3º e o 5º do Grupo Norte. Os campeões de cada mata-mata garantiriam a promoção. O mata-mata segue o mesmo conceito da Série B.

Série D: O modelo atual da Série D não garante planejamento aos times envolvidos, que não contam com um calendário fechado do início ao fim da temporada. E, para os times que não se qualificam à Série D, restam somente copas estaduais com pouco valor para o torcedor. Assim, é necessário prover uma competição que contemple o maior número possível de equipes, se baseando no formato de liga, que garante um calendário anual relativamente fechado para todos os meses. Assim, a fim de respeitar as particularidades de cada estado e de reduzir custos e estimular rivalidades locais, a Série D teria uma temporada regular estadualizada, que necessariamente garanta um mínimo de 24 jogos por time (isto é, ao menos um jogo em casa para cada mês do ano, para permitir os pagamentos das folhas salariais ao longo de todo o ano), e um máximo de 30 jogos. Os 27 vencedores de cada divisão estadual garantiriam vaga no mata-mata final, que teria, portanto, 10 rodadas (dos 16-avos-de-finais à final, sempre com jogos de ida e volta), fechando a competição em 40 datas, como as séries B e C. A estadualização da Série D também a tornaria flexível, permitindo acomodar eventuais discrepâncias entre os estados (com a transição da Série C para a D, alguns estados poderão aumentar seu número de equipes nas três primeiras divisões ou diminuí-lo, o que implica eventuais expansões ou reduções de cada grupo estadual da Série D). Abaixo da Série D, cada estado teria autonomia para criar novas divisões, garantindo todos os clubes do estado dentro da estrutura. Para garantir a autonomia das federações estaduais, a temporada regular da Série D seria de organização das próprias federações, assim como as divisões abaixo da Série D.

Estaduais: O atual modelo dos campeonatos estaduais ocupa uma parcela excessiva do calendário, e a estrutura das competições estaduais, com ligas para cada divisão, infla o calendário e deixa muitos clubes pequenos longe da disputa pelo título do estado. A fórmula proposta para as séries C e D do nacional, com a possibilidade de cada estado criar suas próprias divisões abaixo da Série D, torna desnecessária a estrutura do campeonato estadual com várias divisões. A fim de unificar as estruturas do futebol profissional, os estaduais assumiriam a condição de copas, correndo em paralelo aos campeonatos nacionais durante o primeiro semestre. Cada estado teria autonomia para definir a fórmula de disputa de seu campeonato, mas a restrição 10 rodadas favorece a aplicação de uma copa no formato de mata-mata de no máximo 32 equipes, ou o uso de uma fase de grupos anterior ao mata-mata final. Com apenas uma única divisão, o campeonato estadual usaria os campeonatos nacionais como critério de classificação.

Copa do Brasil: Muitos defendem uma Copa do Brasil à semelhança das copas europeias, com centenas ou mesmo milhares de times de todo o país. O que é financeiramente inviável em um país de dimensões continentais, e que só é possível em países do tamanho de estados brasileiros. No entanto, se a Copa do Brasil for entendida como uma sequência dos estaduais, o sonho da copa de mil times se torna real. Com a colocação da Copa do Brasil no segundo semestre, após os estaduais, e com a participação apenas dos campeões estaduais, a Copa do Brasil se torna uma genuína continuidade dos estaduais, valorizando-os (uma vez que seus títulos passam a ter um valor palpável para aqueles que hoje defendem que os estaduais já perderam seu valor). Com sua final sendo realizado no fim da temporada, o fenômeno de seu campeão dar menos valor ao Campeonato Brasileiro seria eliminado.

Regionais: O retorno das copas regionais – Torneio Rio-São Paulo, Copa Sul, Copa Centro-Minas e Copa Norte, além da manutenção da Copa do Nordeste – atende às demandas dos clubes por mais títulos, necessidade mais forte no futebol brasileiro pela quantidade de clubes com grandes torcidas. Os torneios regionais seriam destinados aos times que não se classificarem à Copa do Brasil, isto é, aos melhores colocados de cada campeonato estadual abaixo do campeão. Os regionais seriam disputados em paralelo à Copa do Brasil e dariam vaga na Copa Sul-Americana. Como a final das competições seriam somente no final da temporada, o interesse pelos torneios seguiria alto entre a maioria de seus participantes.

Brasileiro de Seleções: Esta é uma ideia ainda em acabamento. As rivalidades e identidades estaduais são parte importante da formação do futebol brasileiro, e no passado já existiu um Campeonato Brasileiro de Seleções. O intuito de seu renascimento é realizar um evento que se espelhe no conceito do esporte americano do All Star Game, o jogo das estrelas, e no conceito australiano do State of Origin (Estado de Origem, o duelo anual entre seleções estaduais, reunindo a nata do esporte do país). Para não sobrecarregar o calendário, tal evento seria realizado ao final da temporada, durante o Mundial de Clubes, desobrigando os atletas de um possível time brasileiro envolvido no Mundial a participarem do evento.  Da mesma maneira, atletas que não estiverem em condições físicas de risco poderiam também ser liberados, preservando o caráter festivo do evento. O Brasileiro de Seleções teria 3 divisões, sendo as duas primeiras disputadas por 8 equipes cada. Cada uma das divisões será disputada em sede única, isto é, com todos os jogos sendo realizados em um único estádio. Na 1ª divisão, os 8 times disputam um mata-mata iniciado com as quartas-de-final, que são seguidas pelas semifinais para os vencedores e para a repescagem para os perdedores. Na última rodada, seriam conhecidos o campeão, o 3º colocado, o 5º colocado e o time rebaixado (perdedor disputa do 7º lugar). O mesmo formato seria utilizado para a segunda divisão que, contudo, teria 2 rebaixados. Na terceira divisão, as equipes seriam divididas em 2 grupos com 6 times cada, sendo que os últimos times rebaixados teriam a vantagem de já estarem garantidos nas semifinais. O torneio contaria também com a participação da Seleção Brasileira Sub-19, garantindo um número par de equipes participantes.

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2 responses to “Por um novo calendário

  1. Olá turma do Futebol Memória,

    Meu nome é Humberto Alves, sou gerente de afiliados do http://www.apostasonline.com e gostaria de lhes fazer uma proposta.

    Como não consegui encontrar nenhuma área para contato, poderiam me enviar um email para afiliados [arroba] apostasonline.com para darmos continuidade a negociação?

    Grande abraço

  2. Pingback: O texto gigante sobre o futebol brasileiro |·

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