Especial: Alex Ferguson

ImageDepois da merecida e já esperada aposentadoria de Alex Ferguson, se eu disser que todos os jornais e portais esportivos mostraram os números impressionantes do treinador, tenho grande chances de acertar, mesmo sem ter lido todas as matérias.

Falar de Alex Ferguson através de números é muito fácil: o Manchester United tem 20 títulos ingleses, 13 sob o comando dele; 3 Champions League, duas com ele; 4 taças da Liga, as 4 com ele; com 26 anos e alguns meses no United, ele é o técnico mais longevo da História; ganhou 27 prêmios de treinador do mês e 10 prêmios de treinador da temporada. Na Escócia ele também é ídolo, treinou o Aberdeen por oito anos, ganhou 3 nacionais, 4 copas e dois títulos europeus, fazendo do clube a terceira força da Escócia (talvez segunda, agora que o Rangers faliu) e único pequeno a conquistar títulos europeus.

Os quase 27 anos em um só clube, os mais de 40 (!!!) títulos em competições e os 68 (!!!) prêmios individuais são números fantásticos, impressionantes, mas são frios. Os números não dão conta do que foi Alex Ferguson, o título de Sir não explica o que foi Alex Ferguson, é só mais uma papagaiada anacrônica dos ingleses. Para explicar Ferguson precisamos entender uma coisa: Ferguson e o United sagraram-se como uma máquina de títulos justamente quando o futebol inglês transformou-se em negócio, em uma grande empresa esperando por investimentos privados, por clubes empresa e jogadores mercadorias, assistidos por uma plateia de clientes silenciosos e educados. Ferguson pode não ser o melhor treinador de todos os tempos, mas ele, com certeza, é o maior treinador de todos os tempos, e seu grande mérito foi ter sido o melhor administrador que o Manchester poderia ter tido: um CEO que entende tudo de futebol.

O que está por trás dos números?

Alex Ferguson já mostrava ser um ótimo treinador e grande líder na Escócia. Os títulos da ImageUEFA e da Super Copa europeia chamaram a atenção do United, que contratou o técnico no distante ano de 1986. Ele passou quatro anos sem nenhum título, mesmo assim não foi demitido! Na temporada 89/90, ganhou uma FA Cup, aliviando a barra do treinador, que já sofria pressão da diretoria e das arquibancadas. Em 92, no primeiro ano do novo e moderno campeonato inglês, a Premier League, Ferguson ganhou o primeiro dos 13 títulos que conquistaria. E isso significa muito!

Ele entendeu, antes de todo mundo, o caminho que o futebol iria seguir. O avanço do neo-liberalismo nos anos 80 alcançou também o futebol, isso aconteceu primeiro na Inglaterra e, por lá, aconteceu primeiro no United. Clubes com dono, clube-empresa, jogadores fatiados e negociados como mercadorias. O vocabulário dos negócios chegou ao futebol, que passou a ser “futebol moderno”: investimento, marketing, retorno, negociação, compra, venda, direitos federativos, direitos de imagem, empresários. A categoria de base e o time reserva (re-criados por Ferguson) tornaram-se investimento de pouco risco com retorno a longo prazo; as contratações, investimentos de risco com retorno a curto prazo; um título causa renegociações de patrocínio e direitos de TV, que são retornos de médio prazo. O futebol virou negócio, e, como tal, precisava ser administrado.

Ferguson, o manager:

ImageO mérito maior de Ferguson foi ter entendido isso tudo, ter visto o futebol como um business neoliberal e assim encará-lo. De treinador passou a manager: ele cuidava das categorias de base, do time reserva (algo como um Manchester B), escolhia quem seria vendido, quem seria comprado, quanto o clube deveria gastar com salários, quem deveria ser contratado para a comissão técnica, quem deveria ter aumento, quanto seria a premiação dos jogadores. Ferguson era um administrador, um gerente, quase um CEO, muito mais que um treinador de boné, apito e bermuda, comandando um rachão.

O futebol inglês transformou as arquibancadas de torcedores em uma plateia de clientes. Transformou em arenas os charmosos (mas obsoletos) estádios. Obrigou sua torcida a ficar sentada e encareceu ingresso, comida e bebida. Enriqueceu, se reestruturou, mas expulsou da festa os ingleses mais pobres e apaixonados. Foi por ter entendido esse processo que Ferguson transformou também o United: em 21 temporadas de Premier League (o novo e elitista campeonato inglês), 13 foram conquistadas pelos red devils.

Em 26 anos (quase 27) é absolutamente normal identificarmos erros, contratações mal feitas, um jogador da base profissionalizado muito cedo, ou algum outro que se mostrou uma má aposta, não é difícil encontrarmos substituições erradas de Ferguson ou escalações equivocadas. Mas, repito, são 26 anos! O número de acertos ao longo desses anos só confirma o quanto Ferguson foi eficiente e produtivo – termos também muito comuns ao business. 

Nos últimos anos, o escocês mal frequentava os treinos, seus assistentes é que distribuíam coletes, cones, elásticos, bolas e comandavam os treinos táticos e técnicos. Alex Ferguson era o gerente e o líder, a lenda monumentalizada, era – e ainda é – o alicerce que dá confiança, que controla os egos, estimula estrelas consagradas e acalma jovens promessas.

Graças a esse sujeito, o Manchester hoje é uma marca mundial, a segunda mais valiosa entre todos os esportes. Se o centro do futebol moderno e liberal é o dinheiro, se o objetivo é ter uma marca mundial e valiosa, ele foi o melhor treinador que um clube inglês poderia querer. Alex Ferguson é o símbolo do futebol moderno, com tudo de bom e de perverso que isso significa.

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