Garrincha, a alegria do povo

Lá perto de Macaé, no Rio de Janeiro, um rapagão grande e forte arrumou casa e emprego pra levar uma vida com a sua esposa. A cidadezinha em que ele se ajeitou foi Pau Grande. Crescida em torno de uma fábrica (a América Fabril) de tecidos, o lugar era um paraíso perdido: calmo, seguro, com a fábrica ajudando os funcionários em quase tudo…O tal rapagão fez o irmão ir morar com ele. Não muito tempo depois nasceu seu sobrinho, mirrado e com as pernas completamente tortas. Era Manoel….o Garrincha.

O menino cresceu jogando futebol, pescando, caçando passarinho com arminha de chumbo…não parava e se machucava muito. Seu prato favorito durante muito tempo era arroz, feijão e macarrão. Costume na época, toda doença (resfriado, dor de cabeça, pneumonia) era tratada com cachimbo. Uma mistura de ervas, mel e…pinga! Desde criança Mané tomava essa mistura e, como era normal, fumava cigarros mesmo antes de perder a virgindade. E olha que ele perdeu cedo…com uma cabra!
Não se ligava muito em futebol, dizia-se flamenguista mas na verdade tanto fazia. Em 1950, não entendia porque o povo estava tão triste. O Brasil tinha perdido a Copa, em casa, mas e daí? O negócio dele era jogar. Isso sim! Jogando ele se divertia…e, mais tarde, garantia seu emprego.

Como todo cidadão de Pau Grande, Garrincha também foi trabalhar na América Fabril. Mas ele não era um funcionário muito dedicado. Como seria ao longo da vida toda, ele saia muito do serviço para encontrar-se com mulheres e para beber. Mas como demitir o empregado que garantia a vitória do time da fábrica no futebol sagrado do Domingo? Sua habilidade nos campinhos garantia seu emprego – mesmo sem trabalhar muito.

Por insistência de muita gente, seu tio principalmente, Garrincha foi ao Rio de Janeiro participar de peneiras seguidas vezes. Muitas delas nem chegou a jogar. Ele já havia desistido – e nem precisava de muito, visto que ele adorava a vida em Pau Grande – quando um dos homens do Botafogo viu ele moer os marcadores, marcar incontáveis gols e decidir sozinho um jogo. Levou ele para um teste entre os juniores. Esse dia, em que Garrincha e Botafogo foram apresentados, é lendário e muita gente dali pra frente começou a dizer que estava lá quando ele chegou.

Tivesse passado pelos médicos antes de passar pelo treinador, Garrincha teria ido sozinho até o trem e voltado pra casa. Não era possível que jogasse futebol uma pessoa com uma perna maior que a outra e as duas muito tortas, com a bacia meio deslocada pro lado…mas ‘fazer sentido’ não era com Mané. A contratação dele foi imediata, depois do show que deu no teste, mas graças a um detalhe: Garrincha já era casado (com Nair), graças a uma gravidez inesperada, e por isso era emancipado. Foi o primeiro de muitos contratos em branco.

Anjo das pernas tortas, a alegria do povo, o fabricante de joãos, Mané Garrincha…tantos apelidos quanto possível foram dados a essa figura. Não é pra menos, tamanho o impacto que ele causou no futebol. O primeiro título foi em 1957, um carioca que foi divisor de águas no Botafogo: era o fim de uma época de más atuações, fracassos, de muita superstição e o começo de longos anos sendo a base da Seleção – com Garrincha jogando muito bem e fazendo olhos brilharem, Nilton Santos em grande fase, Zagallo e mais tarde, Didi -, ganhando quase todos os clássicos, colecionando títulos (Carioca e Rio-São Paulo).

Nessa época, no Brasil, a tão falada síndrome de vira-lata (termo criado, se não me engano, por Nelson Rodrigues) estava cada vez mais forte. O Brasil tinha perdido as duas Copas de antes da 2ª Guerra e depois, em 1950, recebeu a tarefa de organizar uma – já que a Europa estava toda destruída -, organizou e perdeu no fatídico Maracanazzo. Em 54 foi derrotado pela extraterrestre Hungria (do Puskas, que está ali em cima no Panteão)…enfim…ninguém esperava um título. Quase convocado para 54, em 1958 Garrincha era uma certeza. Com Pelé novíssimo, vários colegas do Botafogo e MUITAS mulheres, Garrincha passou a jogar a partir do terceiro jogo e foi decisivo. O primeira taça do Brasil em Copas faz lembrar mais de Pelé, mas Garrincha teve vital importância naquele time.
Naquele ano, a URSS era muito temida pelo diabo do “futebol científico”. Em plena Guerra Fria, dizia-se que os soviéticos eram treinados por máquinas, que possuiam um computador capaz de elaborar táticas invensíveis…aquele monte de babozeiras que União Soviética e EUA falavam para se cutucar.  E eles jogariam contra o Brasil. Bom…em três frenéticos minutos o Brasil abriu o placar. Garrincha colocou os filhos de Lenin para dançar, chegou a deixar dois soviéticos sentados no chão. A platéia aplaudia, atônita. No fim ficou dois a zero.

Para não fugir muito da história de Garrincha, vale só dizer que ganhamos a Copa, ele jogou muito bem e deixou um filho na Suécia. Acreditam? É verdade! Bem a cara do Mané. Acelerando um pouco  o fio da história, não demorou pra Mané conhecer aquela que por muito tempo cuidou dele como ninguém: Elza Soares. E foi pra ela que ele ganhou aquela Copa de 62.

A Copa de Garrincha…é o que dizem. Logo cedo Pelé se machucou, não poderia voltar a tempo de jogar a competição. Uma pena…aqui, olhando para eles com a distância dos anos, só podemos imaginar como seria aquela Copa com os dois juntos. Garrincha no auge e Pelé, bom…era Pelé. Com os dois jogando o Brasil não perdeu nenhum jogo.
Mas com o santista machucado, os olhos (e marcação) estavam todos no botafoguense. Mas ele não fez feio. Creditam esta copa a Mané com muita razão. México, Tchecoslováquia, Espanha, Inglaterra, Chile, Tchecoslováquia de novo. O Brasil não perdeu nenhum jogo, só empatou o primeiro contra os tchecos. E ainda goleou os jogos finais. 3 a 1 contra a Inglaterra, 4 a 2 contra o Chile e 3 a 1 de novo no jogo final. A nota triste é que nosso craque só jogou a final graças a uma cartolagem. Ele havia sido expulso. Não vou explicar o mecanismo aqui porque não vale a pena dar muito ibope. O fato éque o Brasil foi bicampeão e Garrincha comemorou ao seu melhor jeitão no chuveiro com Elza Soares.

Com o Botafogo, Mané foi bicampeão carioca em 61 e 62 e ganhou um Rio-São Paulo nesse último ano. Mas, comum pra época, a principal fonte de renda (e desgaste) eram as excursões. Incontáveis jogos pela América do Sul e Europa foram disputados pelo Botafogo (pelo Santos, Palmeiras, Flamengo, entre outros). Nessas partidas Garrincha era indispensável, os adversários pagavam principalmente para tê-lo em campo. Eram jornadas desumanas, disputava-se jogos dia sim dia não com viagens longas entre um e outro. Talvez Mané tenha sido a principal fonte de renda nos primeiros anos, mas, depois dos títulos do Brasil em 58 e 62, os contratantes queriam o time inteiro – Zagallo, Nilton Santos, Didi, até Amarildo. Trocando em miúdos, Garrincha defendeu a camisa do Botafogo dentro e fora do Brasil com a mesma arte. Era fonte de dinheiro para o clube e divertimento para as torcidas nas excursões ao redor do mundo, mas também essencial em várias partidas a valer. Carrasco dos maiores rivais no Rio e em São Paulo, era intocável na ponta-direita.
Numa dessas partidas decisivas, em um jogo contra o Flamengo – pela final do Carioca de 62 – Garrincha decidiu o jogo ao seu melhor estilo. Marcou dois tentos inacreditáveis em uma vitória por 3 a 0 (o outro gol foi contra). Fez valer cada fio brilhante da sua estrela com gols, passes, dribles…como de costume.
Infelizmente, por vários fatores que deslancharam a acontecer, é possível considerar este como o último jogo de Garrincha.

A partir dai a vida dele virou uma montanha-russa com mais descidas que subidas. Ele recebia menos do que merecia no Botafogo, tinha dinheiro a receber e nunca recebia – lembrando que ele era bem desligado e desleixado nesse sentido, mas há ai culpa do clube. Além disso, seus problemas com alcoolismo e com o joelho estavam cada vez piores, insustentáveis. A cirurgia tão postergada acabou acontecendo…com um médico de outro time. A bebida, mesmo contra a vontade de Elza, estava sempre com ele. A relação entre o time e o jogador já não andava muito boa e só piorou. O clima não estava nada bem, isso porque o seu caso com Elza Soares tornou-se público e, numa bolha de hipocrisia que estourou, o casal foi linxado. Garrincha era casado com Nair, de Pau-Grande, mas só teoricamente. Além disso todo mundo sabia de suas puladas de cerca. Mas com Elza Soares foi diferente, os dois recebiam ameaças e tiveram a casa invadida.
A Copa de 1966 era uma esperança de melhores momentos. Garrincha foi convocado de novo e todo mundo contava com o título. O Brasil estava cheio de veteranos, Garrincha estava muito mal e Pelé era extremamente marcado. Não deu, fomos desclassificados pelo Portugal de Eusébio. A volta para o Brasil não foi feliz como as últimas duas.
Como eu disse, a situação de Mané no Botafogo e na sociedade não era das melhores. Nesse contexto, o Botafogo fez acusações à Garrincha e ele foi ao rádio acusar o clube. No fim das contas, não houve acerto e Mané resolveu sair. Foi liberado para o Corinthians.

Em São Paulo, o camisa 7 recebeu um carinho que havia muito não recebia. A torcida corinthiana foi recebê-lo no aeroporto e ele sentiu-se muito querido. Mas em campo sua atuação já não era a mesma, ele estava na descida da montanha-russa e, com frio na barriga, não conseguia enxergar uma subida. Continuava bebendo muito e por isso e pelo joelho imperfeito não rendia muito nos jogos. Foram só 13 partidas. Passagem mais rápida ainda foi pela Colômbia, no Atlético Junior. Depois de sair do Corinthians, ele foi para lá com pecha de craque, jogou um jogo só e, depois de uma atuação terrível, teve que sair fugido. Não estava nada bem para ele.

Já divorciado de Nair, com problemas financeiros e uma condenação pela morte da sogra em um acidente em que diriga bêbado, Garrincha foi para a Itália com Elza Soares. Passaram um bom tempo lá. Ela trabalhava em shows e mais shows, ele bebia garrafas e mais garrafas. Foi lá que ele viu Jairzinho, seu substituto no Botafogo, brilhar na Copa de 70. Em plena ditadura, um craque das Copas abandonado no exterior não era uma boa imagem do Brasil. Depois de vários “jeitinhos”, Garrincha foi colocado em um cargo público, algo como um embaixador do café. Sua função era ir apresentar o café brasileiro em feiras ao redor da Europa. Era mais uma forma que amigos arranjaram para ajudá-lo. Amigos levavam ele para tomar banhos gelados para curar a bebedeira antes de treinamentos, outro amigo (um banqueiro) salvou Mané pagando pensões atrasadas, quitando a casa do Rio de Janeiro. Muitas pessoas ajudaram Garrincha ao longo de sua vida. Esse emprego foi mais uma das ajudas. Era tanta displicência que mais de uma vez Elza deixou ele arrumadinho no portão de embarque para viajar e trabalhar. E também mais de uma vez ele esperava que ela fosse embora e ficava no bar do aeroporto bebendo. Na última vez, ele estava em um hotel e algum dos funcionários ligou para sua casa pedindo que Elza fosse buscá-lo. Ele estava, mais uma vez, completamente bêbado. Aquele foi o dia da primeira troca de agressões físicas dos dois.

Voltando para o Brasil, Garrincha tentou um último suspiro. Foi jogar pelo Flamengo, vejo só, justamente pelo Mengo. Foram 15 partidas, 4 gols e muito pouco do que se lembrar.

Ele ainda atuaria por timecos ao redor do Brasil. Chegava, jogava uma partida, e ia embora. Chegou a jogar pelo Olaria, foi a grande contratação, mas nada demais aconteceu…nada mesmo. Era triste, mas Garrincha insistia. Jogou também por um time de ex-jogadores que se apresentava pelo Brasil. Fez bem para ele em um momento de grave alcoolismo, mas também foi em uma dessas viagens que ele teve uma recaída depois de 6 meses sem beber.

Mané Garrincha perdeu Elza no dia em que, possesso e bêbado, agrediu a cantora com muita violência. Ela segurava o filho deles, o Garrinchinha, nos braços e chorava. Foi uma noite triste e ela saiu de lá dizendo que não queria mais vê-lo. Pouco tempo depois ele estava casado de novo, com Vanderléia. Esta mulher o viu em seus piores momentos de alcoolismo, durante todos seus últimos anos de decadência.

Garrincha teve uma história de inocência e bondade. No fim da vida, havia assumido um personagem que não existia. A tal história que ele chamava os zagueiros de “João” (como fizesse o que quisesse com qualquer um) foi criação de Sandro Moreyra, um amigo jornalista, mas não era verdade…e ele incorporou. Incorporou também um personagem de coitado, em que todos os seus problemas eram culpa dos outros. Ele acabou esquecendo das tantas ajudas que recebeu. A principal delas foi o jogo de despedida, em que a renda toda foi dada a ele. Vários cantores, atores e celebridades em geral fizeram o pré-jogo; depois, um Maracanã lotado viu o jogo entre a Seleção Brasileira contra um mistão de jogadores estrangeiros. Foi um último momento de alegria, mas o dinheiro – a despeito da ajuda oferecida por Pelé, que disponibilizou assessores para administrá-lo – escorreu pelas mãos.

Mas o significado que tem Garrincha faz desaparecer as más lembranças. Jamais será esquecido o o jogador das pernas tortas, que driblava como ninguém…aquele que passava pelos jogadores e esperava que voltassem para dribá-los de novo. Jamais esqueceremos um jogador que fez tanto pela Seleção e marcou tanto o Botafogo. Um jogador de lances impossíveis e futebol único. Manoel morreu em 1983, vítima de cirrose e complicações causadas pelo alcoolismo. Mas Garrincha ainda vive…

**Por Bruno Jeuken … nessas linhas mal escritas, minha homenagem ao craque da camisa 7. Muita coisa passou batida, mas acho que consegui resumir a vida dele.

Minhas fontes:

A Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha — biografia escrita pelo grande Ruy Castro.
Garrincha, a alegria do povo — documentário de Joaquim Pedro de Andrade

3 responses to “Garrincha, a alegria do povo

  1. Pau Grande nao fica perto de Macaé, e sim de Magé,
    sei disso porque morei lá e hoje moro em Macaé

    • Poxa, você tem razão!

      Peguei o livro “Estrela Solitária” pra escrever esse artigo, lá os filhos aparecem muito! Acabei não passando pra cá.

      Valeu pelo comentário!

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