José Manuel “Charro”

Se você alguma vez botou os pés no planeta Terra já ouviu falar de Pelé não é mesmo? Assim como de Maradona, Garrincha, e não precisa ser um aficionado por futebol para ter ao menos a vaga lembrança de deparar-se com o nome de Di Stéfano. Todos estes compõe o panteão do mais popular esporte do Mundo. São lembrados por sua técnica, conquistas e personalidade vibrante – dentro e fora de campo – assim como por seus estilos diferentes, mas finamente requintados na presença da pelota. Foram, são e serão sempre referências e objeto de admiração, mesmo de quem não os viu jogar.
 Esse post é um clássico, muito bom mesmo! Não pare de ler agora, clique aqui. Desfilaram em campo por décadas como as grandes estrelas de suas gerações, e com outros jogadores sensacionais como Lêonidas da Silva, Friedenreich, Puskas, Beckenbauer, Zico, Zizinho, Cruyff… são tantos que é facil perder as contas e cometer injustiças ao não citá-los. Mas, cá pra nós, conversa de pé-de-ouvido; dentre todos os futebolistas renomados que poderiamos lembrar, você se lembraria de José Manuel “Charro” Moreno? Na verdade a pergunta é outra: você já ouviu falar de “Charro” Moreno? E se eu dissesse que ele é considerado pelo IFFHS (Federação Internacional de História e estatística do Futebol) o quinto melhor jogador sulamericano de todos os tempos?

Prazer, Charro!

Nesta manhã, enquanto tomava um animado café-da-manhã na padoca – um verdadeiro clássico paulistano, com um pão-na-chapa e um pingado a tiracolo – ouvi dois senhores, já bastante idosos, discutindo vivamente sobre o futebol do passado (e como futebol e conversa alheia sempre me interessam, tratei de espichar o ouvido). Faziam ilações sobre mudanças táticas, discutiam com propriedade sobre as diferenças de motivação que agitavam os profissionais da bola de hoje e de ontem, mas me chamou a atenção, quando, falando de jogadores clássicos, um deles, com um portunhol bem puxado para o sotaque portenho, exclamou alto e claro: “No hay um jugador na historia me encato mais que  “El Charro”!!!” (assassinando português e espanhol simultaneamente). Causou acalourados protestos. Mas disso tudo, o que me chamou a atenção foi o fato de não fazer a menor idéia de quem foi este tal “El Charro”. Logo pus a cara na internet e lá fui  gastar meu espanhol pesquisando sites argentinos (depois de uma passadinha na wikipédia é claro).

Nascido dia 03/08/1916 em Merlo, parte da grande Buenos Aires, na época com aproximadamente dez mil habitantes, praticava o futebol nos clubes da cidade, e ingressou ainda jovem no plantel do River Plate em 1934, com apenas 18 anos após ter encantado o atual presidente do clube, Antonio Vespucio Liberti (que de tão importante, hoje dá nome ao Estádio Monumental, casa da equipe). Foi firmar-se como titular com o passar do tempo, onde destacou-se mesmo ainda jovem pela capacidade de liderança dentro do grupo (diziam que era um habilidoso negociador, resolvendo conflitos no elenco e servindo de via de diálogo entre jogadores, comissão técnica e diretoria), pela sua inteligência e visão de jogo, capaz de adaptar-se a qualquer esquema tático, pelo bom porte físico, domínio dos fundamentos e técnica apurada. Jogava no meio campo caindo pela direita, um pouco mais ofensivo e aberto que nosso clássico “meia”. Dizem que era um exímio cabeceador quando chegava a área, e era muito preciso nos arremates.

Foi pernas, cabeça e coração do time. Ligava a bola da defesa ao ataque, pensava e modificava o jogo dentro de campo, ditava o ritmo e abria espaços para o brilho de outros grandes jogadores como Adolfo Pedernera e Ángel Labruna (maior artilheiro da história do clube). Foi com esta equipe, cujo ataque foi apelidado de “La Máquina”, que a equipe alvirubra obteve seu melhor momento na história, conquistando 3 Campeonatos Argentinos (1941, 1942 e

Adolfo Pedernera (a esq) e “Charro” Moreno

1945) e 2 vices (1943 e 1944).  Ele não esteve na conquista de 45, mas voltou em 46 após passagem pelo España do México, nos braços da “hincha” do River que fez uma grande festa para receber seu jogador mais querido, acabando por conquistar o campeonato de 1947, cuja equipe já possuía Alfredo Di Stéfano no ataque.

Evidentemente, levar qualquer ranking em conta, mesmo (ou ainda mais?) os do IFFHS para apontar os melhores jogadores que tivemos é uma grande temeridade. Em geral as pessoas adoram discutir se tal jogador era melhor este ou aquele, mesmo sendo de épocas totalmente distintas. Por exemplo na Argentina dizem que Maradona foi melhor que Pelé (só na Argentina mesmo né?). Já no Uruguai, dizem que nenhum dos dois servia sequer para amarrar a chuteira de Piendibene, maestro do Peñarol e da seleção uruguaia no começo do século XX. Loucuras a parte (Não teve ninguém melhor que Pelé, mas acredito que, ao seu tempo, houve alguns que certamente não foram piores do que ele) em números, Charro não foi tão impressionante quanto o Rei ou Friedenreich, e não possui grandes títulos internacionais em abundância (parte disso pela ausência da disputa da Copa do Mundo e de torneios na Europa na década de 40? Discuto isso em outro post…), mas acredito que o senhor da padaria tenha uma certa razão. Um bom jogador e feito de boas exibições, aplicação nos treinos, poder de decisão, mas para se juntar as lendas do esporte, fazer parte do panteão que eu citei no começo do texto, é preciso mais. Muito mais. Carisma, estilo e muita, muita paixão. E isto pelo que pude ver, não faltava a este jogador e a todos que o viram jogar. É adorado até hoje, e lembrado como um ídolo que não teve o reconhecimento merecido internacionalmente pela falta de chances de mostrar seu futebol ao Mundo. Se a vale o testemunho, fico com a declaração do seu companheiro de clube e seleção, Pedernera:

“El Charro –como le decían- fue el mejor jugador que vi en mi vida. Y por varios cuerpos. Tenía todas las virtudes: una formidable habilidad, le pegaba con las dos piernas –no con potencia pero sí con una gran precisión-, cabeceaba y lo hacía con tanta violencia que parecía que pateaba de voleo, tenía aire de sobra. Jugaba con alegría y era guapo. Casi nada, ¿no?”.

P.S:  Sabiam que o jogador, apesar de ter feito seu nome no River Plate, era um torcedor apaixonado do Boca Juniors? Era réu confesso, mesmo quando defendia o o time alvirubro. Teve oportunidade de jogar no Boca em 1950, mas pouco ficou. Deve ter sido realmente um bom jogador e uma ótima pessoa para ser adorado mesmo tendo escancarado sua paixão pelo maior rival do River.

P.S.S: Enquanto pesquisava sobre o jogador, encontrei este artigo que saiu na Revista ALFA, feito por Léo Farinella, colunista do “Olé”, o “Lance” da Argentina. Vale a pena conferir, ele é um piadista hehehe:

http://revistaalfa.abril.com.br/estilo-de-vida/futebol/conca-es-nuestro/

POR YURI MOLEIRO

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One response to “José Manuel “Charro”

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