Nilton Santos, muito mais que uma enciclopédia

16 de maio de 1925. Nascia Nílton dos Santos. Um nome simples para uma pessoa simples, que passaria esta característica para suas atividades. O primeiro dos sete filhos de Seu Pedro e Dona Josélia veio ao Mundo na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. A família vivia da pesca, e longe da abundância de recursos. Felizmente, longe da falta de itens primordiais também. Teve as boas memórias da infância, algo que toda criança merecia.

Desde a escola, mostrava interesse pelo futebol. Rapaz alto, esguio e muito ligeiro para seu tamanho. Todos se surpreendiam com sua habilidade e velocidade; não esperavam aquela desenvoltura toda daquele corpanzil, imaginando-o lento e desajeitado. Mas apesar da aparência desengonçada, comum em fases da vida de certos guris que cresceram rápido demais (eu vos falo com experiência), Nílton conhecia os truques do esporte: jogador formado na praia, nos campos de terra batida, na pelada de rua… tinha a manha e sabia utiliza-la. Ambidestro, jogava a frente e fazia valer seus diferenciais, pegando a bola e imprimindo outro ritmo nas partidas de moleque. Coisa fácil, preparo físico tinha de sobra, pulmão fortalecido por anos de remo, não como esporte, mas como sustento. Com 14, chegou ao Flexeiras Atlético Clube, destino de todo rapaz bom de bola de seu bairro. Agora de chuteira nos pés e jogando em gramados com gols de tamanho oficial, veriamos se o jovem era peladeiro ou jogador!

Bem… mostrou-se jogador. E dos bons!!

Tinha futuro. Futebol e cabeça no lugar sempre lhe sobraram. Mas quase viu seu sonho afundar: trabalharia como ajudante de garçom, para ajudar nas despesas da casa. Menos tempo para os treinos, mais para a labuta. Faz parte, acontece. Segue a vida. Quem sabe não desaprende, e quem é craque de verdade só precisa de uma oportunidade. Aos 19 anos, alistado, foi servir à Aeronáutica. A malemolência de menino do Rio daria lugar a estrita disciplina de rapaz fardado e alinhado. No entanto, foi no quartel que seu futebol, já motivo de orgulho para ele e de admiração para seus colegas, encontrou um caminho para crescer ainda mais. A tal oportunidade batia a porta!! Impressionado pela boa ginga do rapaz, um superior o convidou para o time dos oficiais. Único soldado entre tenentes e capitães, privilégio fruto de sua habilidade!! Pois foi lá, em jogos pelos times das Forças Armadas, que a pessoa certa bateria os olhos no jovem jogador. Chamando a atenção ao participar de treinos e amistosos contra profissionais – coisa comum na época, os times de militares eram muito requisitados por seu alto nível – teve convites de Fluminense e São Cristóvão, mas por influência direta do Coronel Honório Magalhães (que apadrinhou a promessa e possuía um tio na diretoria botafoguense) acabou aterrissando em General Severiano, para pela primeira vez, aos 23 anos, para assinar contrato (contrato de gaveta, em branco ,daqueles que a palavra vale uma carreira… só assinaria como profissional em 1950)!

Era o inicio de uma história de amor com clube da Estrela Solitária.

Agora tinha que aprender a marcar…

Não antes sem alguma perturbação: logo que chegou – acostumado desde que passou a atuar fora da rua, pela altura, a jogar como centroavante – foi convertido por seu treinador em defensor. Zezé Moreira era o homem de aguda visão, que viu esta possibilidade. Com aquela plasticidade de movimentos e com a disciplina e o bom temperamento que tinha, daria um bom zagueiro. O jogador, então, recuou no campo. Contrariado mas sem esbravejar, pois não era do seu feitio. Antes, queria saber como poderia servir ao clube lá atrás tão bem quanto julgava poder servir na frente.  Era aplicado, determinado e buscava se aprimorar na nova função, sem rancores. Treinando bem na retaguarda, viu seu futebol crescer ainda mais. Mostrou-se um firme marcador, primando pelo bom posicionamento e com facilidade de antecipação. Dizia aos colegas que marcava os atacantes pelo sol, melhor dizendo, pela sombra do adversário, assim sempre tinha uma boa referência da posição dos atacantes que enfrentava. Isto até lhe rendia piadas dos companheiros, que pergutnavam como ele fazia quando estava nublado… o fato é que se virava muito bem em todas as condições climáticas!! Foi colocado de início como quarto-zagueiro, mas acabou tornando-se lateral-esquerdo (era ambidestro, mas pela menor oferta de canhotos, acabou por lá), posição onde desenvolveu-se com primorosas exibições.

Estreou como profissional em 21 de março de 1948 contra o América Mineiro. Gosto amargo, derrota por 2 a 1… mas o consolo (que não consola quem perde) de ser considerado pelos jornalistas o melhor jogador da partida. Começo bom para ele, ruim para o time, mas o sucesso de ambos iria coincidir logo mais. Ele se encontrou como titular e como defensor, passando a ser referência na defesa e na saída de bola, como alternativa para quando as coisas estavam feias no meio-campo. Seu futebol se desenvolvia a cada dia, e os títulos vieram junto com as boa apresentações: logo de saída, um Campeonato Carioca, gloria que o clube a treze anos não possuia! Conquista que lhe rendeu fama, prestigio e um lugar na seleção brasileira que disputaria e venceria o Sulamericano de 1949. Campeão com aquele time, assegurou seu lugar na Copa do Mundo de 1950, ainda no banco. De lá viu a mais dura derrota de sua breve carreira até então, trauma que deixou marcas, como não poderia deixar de ser em qualquer atleta de espírito vencedor. O Maracanã silencioso nunca foi esquecido.

Como jogador, defendeu apenas o alvinegro carioca e a seleção. No Botafogo, em 16 anos de casa, conquistou quatro cariocas (1948, 1957, 1961, 1962), dois torneios Gomes Pedrosa (1962, 1964, antes da época em que se tornou um embrião do Campeonato Brasileiro em 1967) e diversos torneios amistosos pelo Mundo. Foram 729 jogos, marcando 11 gols. Achou pouco? Pode parecer, mas na época era uma verdadeira proeza!! Coisa raríssima, possível apenas por um motivo: era o tempo em que o futebol, em termos táticos, era muito mais rígido do que o atual. O Lateral-esquerdo era, acima de tudo, um defensor. Não tinha obrigações ofensivas, não precisava chegar ao fundo para cruzar, estas era atribuições dos pontas. A rigor, não havia liberdade para ele do meio para frente. Entretanto, Nilton era diferente. Gostava de subir ao ataque quando tinha chance!! Haviam-no tirado do ataque, mas não tirado o ataque dele… e isto deixava os treinadores ensandecidos!!! Praticamente todos com que trabalhou se desesperavam, xingavam e ameaçavam-no quando ele se aventurava a sair em disparada para o gol. E não faziam feio não!! Se jogasse mais perto da área, sem ter que dar um pique de 80 metros para chegar até ela, certamente teria sido um grande artilheiro! Mal sabia ele que com suas subidas, e com o esforço dos jogadores do meio para cobrirem os espaços que deixava quando avançava, estava fundando os moldes do lateral moderno, que depois se tornaria o chamado ala.

Na seleção fez história… e muitos amigos! Era respeitado por todos pelo seu temperamento e inteligência, um líder no grupo que ajudava a manter o bom clima das equipes.  Garrincha, Didi, Amarildo, todos grandes companheiros. Foi à Copa de 1954, amargando a derrota para a Hungria de Púskas. Voltou ao Mundial em 1958, mais experiente, titular absoluto e com a seleção chefiada por Paulo Machado de Carvalho, mais organizada. Atuou no time campeão com Vavá, Garrincha e Pelé na frente, mas consagrando-se lá atrás como a melhor defesa da Copa, sofrendo apenas quatro gols. Quase mata Feola, o treinador, do coração com uma de suas “estranhas arrancadas” no jogo contra Áustria, lance famoso. Nílton pegou a bola na defesa e começou a avançar: “Volta, Nílton”, gritou do banco o treinador. Passou para o meia mas o lateral continuou correndo e ultrapassando os adversários. Já quase na intermediária, ouviu novamente: “Volta, Nílton”. Mas fingiu não ouvir e chegou à entrada da área austríaca: “Volta, Nílton”, berrava Feola, quase se esgoelando. Nílton se infiltrou na área, surgindo como elemento surpresa, recebeu a bola chutou na saída do goleiro, marcando o segundo gol brasileiro, que levou o público ao delírio. “Boa, Nílton”, murmurou Feola, já se sentando no banco novamente, calmo e plácido como se nada tivesse acontecido. Aquela equipe foi campeã mundial sobre a dona da casa Suécia em 29 de junho, e o lateral obteve este glória, aos 33 anos, sendo um dos melhores do mundo na sua posição.

Seleção Campeã Mundial em 1958, na Suécia. Em pé: Djalma Santos, Zito, Bellini, Nílton Santos, Orlando e Gilmar. Agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagallo. Ao lado, o massagista Mario Américo.

Feito obtido novamente em 1962, na Copa seguinte, no Chile. A seleção, com o técnico Aymoré Moreira, mas ainda com Pauo Machado com chefe da delegação, não havia mudado tanto. Estava envelhecida, mas mais experiente. Novamente fez história, novamente ajudou o Capitão Bellini a levar a Jules Rimet O lateral ficou marcado novamente com um lance emblemático. Já macaco velho, com 37 anos, narrou assim aquele momento:

“Começamos mal e tomamos um gol no primeiro tempo. O técnico espanhol colocara um cara novo e veloz em cima de mim, mas ele era canhoto. Ele ganhava todas as corridas, mas na hora de cruzar, tinha que ajeitar a bola para a perna boa. Nessa hora, eu chegava e roubava a bola. No segundo tempo, a mesma jogada se repetiu, mas, na hora de cortar a bola, acabei derrubando o espanhol dentro da área. Instintivamente, dei dois passos e saí da área. O árbitro estava longe, não viu e marcou falta e não pênalti. Foi pura malandragem, daquelas que a gente aprende nas peladas.”

Aprende com quem sabe!! E outra vez título Mundial. Na seleção, cumpriu um ciclo de 82 partidas, com notáveis 4 gols (há divergência, mas retirei os dados do site oficial do jogador). Aposentou-se em 1964, aos 39 anos.  Sua última partida oficial foi contra o Flamengo no Maracanã onde recebeu uma grande homenagem do time rubro-negro (sempre foi muito respeitado pelos rivais) e encerrou sua carreira com uma vitória por 1 a 0. O Estádio estava lotado e Nílton Santos recebeu a mais longa salva de palmas que se conhece no futebol brasileiro. Um adeus como convém aos ídolos deste porte.

Nunca se afastou do esporte e sempre foi chamado a trabalhar em parceria com jornalistas  e escritores. Conquistou o apelido de “Enciclopédia”, pois sabia expressar muito bem o amplo conhecimento que havia acumulado sobre o futebol do Brasil e do Mundo.  É referência até hoje por sua sabedoria. Também trabalhou com milhares de crianças em projetos de escolinhas pelo Brasil a fora. Atualmente, Nílton mora em uma Casa de Repouso na Gávea, no Rio de Janeiro. Aos 84 anos, ele vive uma vida calma, junto de sua mulher, Maria Coeli, e acumula incontáveis amigos e fãs, botafoguenses ou não.

“Tu, em campo, parecias tantos, e no entanto, que encanto! Eras um só, Nilton Santos”
Armando Nogueira, em poema dedicado ao amigo.

Te saudamos grande craque!

POR YURI MOLEIRO

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